O sentido

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  • Publicado : 19 de abril de 2014
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O sentido do passado, que é uma combinação de memórias, não é uniformemente contínuo. Olhando para trás, há uma quebra onde o conhecimento em primeira mão se fragmenta em material secundário de boatos e, num terceiro grau, a crença é extraída do registro escrito. Esse registro se classifica em duas divisões principais, que se referem a pessoas muito parecidas conosco e a pessoas que quasepoderiam ser de outra espécie, tendo motivos que se tornaram indecifráveis ou incompreensíveis para nós. Dessa gente diferente, certas nações que viveram em eras e lugares muito distantes entre si parecem ser do mesmo tipo; as rígidas figuras hieráticas dos egípcios, do período bizantino e dos incas nos parecem semelhantes. A Idade Média é enigmática, não por ser obscura — já que partes imensas dahistória humana sumiram de vista — mas porque ocorreu entre intervalos luminosos, como se tivesse acontecido enquanto estávamos dormindo. Esses golfos de tempo não podem ser medidos pelo quadrado da distância. Encontram-se entre dois conceitos antitéticos de humanidade, da relação entre o indivíduo e o grupo, dois métodos de associação. A distinção foi estabelecida claramente por Sir Henry Maine[1], comos nomes de Sociedade de Status e Sociedade de Contrato.
O axioma da Declaração da Independência, de que todos os homens são dotados por seu Criador com o inalienável direito à vida, provavelmente é lido hoje por muitos americanos como um truísmo que jamais poderia ser negado. É o contrário: essa foi a primeira vez em que esse axioma foi declarado como o princípio político de uma nação. É opostulado primário da Sociedade de Contrato.
Na Sociedade de Contrato, o homem nasce livre e toma posse de sua herança com a maturidade.
Por esse conceito, todos os direitos pertencem ao indivíduo. A sociedade é formada por indivíduos em associação voluntária. Os direitos de cada pessoa são limitados apenas pelos iguais direitos de outra pessoa.
Na Sociedade de Status, ninguém tem nenhum direito. Oindivíduo não é reconhecido; um homem se define por sua relação com o grupo e presume-se que existe apenas por permissão. O sistema de status é privilégio e submissão. Pela lógica básica da Sociedade de Status, um membro do grupo que não cometeu nem mesmo um delito leve pode ser morto pelo “bem da sociedade”.[2] O Japão é uma Sociedade de Status; até a metade do século dezenove, constituía, nosmínimos detalhes, um exemplo completo e inigualado dessa ordem social.
Na Sociedade de Status, do berço ao túmulo, todos devem obedecer; a única exceção, pela mesma lógica, é um governante cuja vontade é suprema e que, portanto, está livre de qualquer obrigação. Ele não tem como cometer injustiças.
A lógica do status ignora fatos físicos. As funções vitais de uma criatura viva não esperam porpermissão e, a menos que uma pessoa seja capaz de agir por si própria, não pode obedecer a um comando. A Sociedade de Status acredita de ter poder de vida e morte; mas, na realidade, apenas pessoas tem o dom da vida. A crença da Sociedade de Status se baseia de fato no poder do grupo de infligir mortes. Em consequência disso, as expressões extremas e características de dois notáveis exemplos deSociedade de Status eram mortuárias: sacrifício humano como ritual dos Astecas; e as pirâmides do Egito, que eram tumbas.
Entretanto, em sociedades formalmente organizadas, pode haver uma mistura de status e contrato. (A razão pela qual foi possível imaginar que o poder da morte deveria ou poderia determinar o princípio de associação é importante e será discutida depois.) A República Romana se destacavapor uma divisão quase perfeita entre contrato e status, meio a meio. Politicamente, incluía uma maior base contratual que qualquer estado anterior ou contemporâneo dela; muito mais que as democracias gregas, já que limitava o âmbito do poder político. No Império, a administração da lei por uma autoridade central e os poderes outorgados ao imperador tendiam para o status. O cidadão parou de...
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