O que e poder gerard lebrun

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GERARD LEBRUN

O QUE É O PODER

© 1981 Brasiliense

ÍNDICE

INTRODUÇÃO APRESENTAÇÃO DO MONSTRO O LEVIATÃ CONTRA A CIDADE GREGA O LEVIATÃ E O ESTADO BURGUÊS COMÉDIA LIBERAL ÚLTIMO CHEFE INDICAÇÕES DE LEITURA

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INTRODUÇÃO

As páginas que seguem não pretendem, de modo algum, constituir uma apresentação exaustiva do conceito de poder na filosofia política. Se fosse este o caso,eu deveria limitar-me a expor um histórico da questão (detendo-me, por exemplo, nos pensadores medievais, cuja importância foi considerável). Mas, nas dimensões deste livro, um tal histórico, embora sucinto, seria forçosamente superficial. Não sou dos que pensam que o estudante de Filosofia deva percorrer em um ano as “doutrinas”, dos Pré-Socráticos a Heidegger. Seria o mesmo que viajar de Boeingpara apreciar as paisagens. O meu desígnio é mais modesto. Partindo de uma palavra de significação tão complexa, tenho apenas a intenção de convidar o leitor a desfazer-se de alguns preconceitos e abandonar algumas “evidências”. Não a intenção de fazê-lo amar “o Poder”, ou de sussurrar-lhe que este “Poder” não é tão ruim quanto se diz, mas de fazê-lo visitar alguns dos cruzamentos e esquinas em quea palavra Poder se revestiu do sentido, a um só tempo vago e maléfico, que possui em nossa fala cotidiana, e isso graças a deslocamentos conceituais por vezes surpreendentes. As palavras abstratas – disse Nietzsche – são como alforjes, nos quais as épocas e as filosofias teriam acumulado as coisas mais heteróclitas. E assim a palavra acaba tornando-se um tal entrecruzamento de “marcas” queembaralha todas as pistas. A função do genealogista é reencontrar estas pistas. E, aqui, apenas tento despertar a curiosidade genealógica. Vale dizer que está ausente destas páginas à preocupação de agradar, assim como a de desagradar, a qualquer ideologia que seja. Às vezes, é preciso ferir alguma, de passagem; às vezes, é necessário tomar a liberdade de desmentir outra, mas sem intenção polêmica.Apenas para diminuir confusões ou equívocos que era nosso propósito dissipar ou afastar. “Então, você só pretende falar-nos de uma palavra”, dirá talvez o futuro leitor, já decepcionado. “Mas o que nos interessa são as coisas; é delas que queremos ser informados”. Mas, responderia eu, não acreditem que as coisas estejam diante dos seus olhos. Quando se trata de coisas abstratas – quando se trata deste“Poder” no qual vocês tomam a liberdade de reunir realidades tão diferentes – vocês têm mesmo certeza de estarem lidando com conteúdos identificáveis e localizados? Com coisas?... Estão seguros de não estarem tratando, simplesmente, com depósitos semânticos? É querendo chegar depressa demais às coisas, é desprezando as palavras sem inventariar o seu sentido, que corremos o risco de cometer algunsenganos desagradáveis. Como, neste caso, acreditar que o Poder seja algo muito simples, e por isso seja lícito esperar liquidá-lo algum dia. Desta maneira nasceu, no século XIX, a crença de que o poder conhecia a sua decadência e de que começara a sua agonia. Se estas páginas são dogmáticas, é apenas porque denunciam esse mito. Compreendo que uns queiram conquistar o poder ou combatê-lo, ou quese resignem a ele, ou o temam, ou o detestem. O que não compreendo é que se possa subestimar o poder.

APRESENTAÇÃO DO MONSTRO

Cada uma das duas Super-Potências dispõe de um arsenal nuclear capaz de exterminar todos os seres vivos: tem, assim, uma potência de destruição total. O Fundo Monetário Internacional, quando vem em ajuda de um país em dificuldades, está em condições de ditar-lhe umapolítica econômica determinada: tem, portanto, a potência de limitar a soberania deste país. A potência é a capacidade de efetuar um desempenho determinado, ainda que o ator nunca passe ao ato. Desta maneira tornamos a encontrar a velha distinção, estabelecida por Aristóteles, entre a potência (dunamis) e o ato, ou melhor, o efetivo (ergon). Ou, mais exatamente, reencontramos um dos sentidos desta...
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