O problema religioso

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  • Publicado : 17 de novembro de 2011
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O PROBLEMA RELIGIOSO
Battista Mondin

Uma manifestação tipicamente humana é a religião. Esta não se acha presente nos outros seres vivos, mas unicamente no homem. Trata-se de uma manifestação que, por abarcar a humanidade inteira, tanto no espaço quanto no tempo (e não só este ou aquele grupo de uma época histórica particular), assume proporções notáveis. Os antropólogos nos informam que ohomem desenvolveu uma atividade religiosa desde seu primeiro aparecimento no cenário da história e que todas as tribos e todas as populações, qualquer que seja o nível cultural, cultivaram alguma forma de religião. De qualquer modo, é sabido que todas as culturas são profundamente marcadas pela religião, e que as melhores produções artísticas e literárias - não apenas das civilizações antigas,mas também modernas - inspiram-se em motivos religiosos.
Portanto, é razoável afirmar que o homem, além de sapiens, volens, faber, loquens, ludens, etc., é também religiosus. Nem o fato de que hoje a religião está passando por uma profunda crise, e que encontram-se muitos indivíduos que se confessam não-religiosos, constitui um argumento plausível contra a relevância do fenômeno religioso. Defato, consideramos o homem ludens, loquens, faber, sapiens, etc., mesmo que nem todos os homens joguem, trabalhem, falem e pensem. Outro tanto vale para a dimensão religiosa: esta se impõe como uma constante do ser humano, mesmo que não seja cultivada por todos os indivíduos da espécie.
A religião, com efeito, é um fenômeno real, típico do homem, porém é também um fenômeno muito problemático e- ousarei dizer - o mais problemático de todos. Isso por um motivo bastante claro: enquanto todas as outras atividades humanas (embora sejam problemáticas) referem-se a objetos cuja existência está fora de discussão, a atividade religiosa, ao contrário, dirige-se a um objeto do qual até sua existência é colocada em questão.
Nestas poucas páginas, procuraremos dar uma idéia da natureza e dacomplexidade do problema religioso. Para esse fim, procederemos dentro da seguinte ordem: antes de tudo, traçaremos uma breve história das interpretações do fenômeno religioso, assim como tem sido visto pelos filósofos; depois, trataremos de efetuar um aprofundamento teórico do problema, elaborando uma definição da religião e examinando as relações que esta mantém com as demais atividades humanas.1. Principais interpretações filosóficas da religião

A questão religiosa sempre esteve presente nas fases mais importantes da história da filosofia. No período antigo, por ela se interessaram Xenófanes, Protágoras, Platão, Aristóteles, Lucrécio, Plotino; na Idade Média, Avicenas, Averróis, Maimônides, Tomás de Aquino, Duns Scoto, Ocam; no início da época moderna, Giordano Bruno,Campanela, Spinoza, Hobbes, Locke. Foi a partir principalmente de Hume e Kant que a questão religiosa tornou-se um dos pontos centrais da reflexão filosófica. Ante tais questões, os filósofos modernos separaram-se em duas alas opostas. De um lado, alguns trataram de demonstrar que a religião está destituída de qualquer fundamento objetivo; ela seria mais ou menos uma invenção ardilosa do homem, devida aomedo (Feuerbach), à prepotência (Marx), à ignorância (Comte), ao ressentimento (Nietzsche), à sublimação dos instintos (Freud), a abusos lingüísticos (Carnap), etc. Do lado oposto, outros autores defendem o valor objetivo da religião, na medida em que esta se basearia numa relação do homem com a realidade absoluta (Hegel, Croce, James, Bergson, Scheler, Otto, Jaspers, etc.). Os primeirosdesenvolvem uma crítica negativa e desmistificadora; os segundos, ao contrário, elaboram uma crítica positiva e construtiva do fenômeno religioso.

A. DESMISTIFICAÇAO DA RELIGIÃO

Hume e Kant, embora atribuindo bases diferentes ao fenômeno religioso, (Hume o fundava no instinto e Kant na razão prática) não haviam posto minimamente em dúvida o seu valor essencialmente objetivo. Mais tarde, esse...
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