O positivismo na poesia

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O positivismo na poesia de Augusto dos Anjos Márcia Peters Sabino

Introdução

Auguste Comte, no seu curso de filosofia positiva, afirma que :
(...) o caráter fundamental da filosofia positiva é tomar todos os fenômenos como sujeitos a leis naturais invariáveis, cuja descoberta precisa e cuja redução ao menor número possível constituem o objetivo de todos os nossos esforços, considerandocomo absolutamente inacessível e vazia de sentido para nós a investigação das chamadas causas, sejam primeiras, sejam finais. (...) Pretendemos somente analisar com exatidão as circunstâncias de sua (os fenômenos) produção e vinculá-las umas às outras, mediante relações normais de sucessão e de similitude 1.

Isto é, Comte renuncia à procura das causas dos fenômenos e preocupa-se somente com adescoberta das leis de funcionamento daqueles, com o objetivo de compreendê-los para poder prevê-los e, finalmente, atuar sobre a realidade, modificando-a – “ciência, daí previdência; previdência, daí ação”. Neste estudo, à semelhança de Comte, serão ignoradas as possíveis causas da “angústia” de Augusto e o interesse recairá, então, nas idéias presentes em seu texto, na linguagem utilizada, aprincípio coincidentes com o “amplo movimento de pensamento que dominou grande parte da cultura européia, em suas manifestações filosóficas, políticas, pedagógicas, historiográficas e literárias, (...) de cerca de 1840 a até quase as vésperas da Primeira Guerra mundial”2: o positivismo. As características gerais do positivismo, segundo Reale & Antiseri, são: o primado do método científico como“instrumento cognoscitivo” possuidor de unidade; a transposição do método das ciências naturais para o estudo da sociedade (sociologia), pois as relações humanas e sociais são consideradas “fatos naturais”; a confiança total na ciência como recurso capaz de decifrar o mundo e de solucionar todos os problemas da sociedade; o otimismo generalizado e a

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COMTE, Auguste. Os pensadores. São Paulo: AbrilCultural, 1978. P. 7 REALE, Giovanni & ANTISERI, Dario. História da filosofia. Vol. III. Sâo Paulo: Paulus, 1991. P. 295

crença no progresso, entendido como inevitável e sempre para melhor; o combate à mentalidade metafísica. Os principais representantes do positivismo são Auguste Comte – seu fundador, na França; John Stuart Mill e Herbert Spencer, na Inglaterra; Jakob Moleschott e Ernst Haeckel,na Alemanha; Roberto Ardigò, na Itália.
Na França, (o positivismo) inseriu-se no racionalismo, que vai de Descartes ao Iluminismo; na Inglaterra, se desenvolveu inserindo-se na tradição empirista e utilitarista e, em seguida, entrelaçando-se com a teoria darwiniana da evolução; na Alemanha, assume a forma de cientificismo e de monismo materialista; na Itália, (...) aprofunda suas raízes nonaturalismo renascentista, embora dê seus maiores frutos (..) no campo da pedagogia e também na antropologia criminal 3.

O positivismo também chegou ao Brasil – “pouco tempo após a morte de Auguste Comte (1857), já se encontravam positivistas no Brasil”4 – tendo como principais representantes Benjamin Constant – “seu representante mais eminente”, fundador da Sociedade Positivista5 – e Miguel Lemos,entre outros.6 A obra única de Augusto dos Anjos, Eu, publicada em 1912 se insere, pois, na época positivista; conseqüentemente, apresenta-se como válida a tentativa de investigar as potenciais coincidências entre a sua obra e aquele sistema filosófico, que pode constituir a estrutura de pensamento que sustenta e conforma seus poemas por meio da linguagem utilizada. A análise será reduzida, nestemomento, a dois de seus poemas: Monólogo de uma Sombra e As Cismas do Destino7.

Monólogo de uma Sombra – o ponto de vista subtérreo

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REALE, Giovanni & ANTISERI, Dario. História da filosofia. Vol. III. Sâo Paulo: Paulus, 1991. P. 296 Peu de temps après la mort d’Aug. Comte (1857), on trouvait déjà des positivistes au Brésil (...) GRUBER, Le Positivisme. Paris: P. Lethielleux...
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