O papel das clinicas na psicologia infantil

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  • Publicado : 23 de janeiro de 2011
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Em 1981, o eminente psiquiatra inglês, Michael Rutter escreveu um trabalho de peso intitulado "A cidade e a criança" no qual, com base em dados empíricos de suas inúmeras pesquisas, concluiu que os males psicológicos infantis associados à vida nos grandes centros urbanos, felizmente, não eram inevitáveis e, que, a despeito do limitado conhecimento acerca da etiologia de tais distúrbios, todos osesforços deveriam ser envidados numa ação preventiva de modo a eliminar alguns fatores empiricamente considerados como determinantes de tais males.

É opinião do autor, com o qual concordamos, que é a partir do conhecimento de todos os fatores determinantes dos males psicossociais infantis e de seus mecanismos de ação que se poder-á agir no sentido de impedir a ação direta e indireta de taisfatores e consequentemente garantir melhores condições de vida para as crianças dos grandes centros urbanos no futuro. Em decorrência, muito empenho deve ser colocado sobre a pesquisa relativa à descoberta de outros fatores da mesma natureza daqueles já descobertos como determinantes dos problemas, bem como sobre os mecanismos pelos quais tais fatores operavam (e o mencionado autor tem demonstradotal empenho através das inúmeras pesquisas realizadas). Nossas presentes considerações também pretendem contribuir para o avanço nessa mesma direção e porisso mesmo nos parecem justificáveis.

Abordemos primeiramente, de forma resumida, alguns dos dados empíricos ingleses de Rutter, para a seguir considerarmos os dados brasileiros, obtidos em pesquisas científicas levadas a efeito por nossaequipe na clínica-escola do UPUSP (CEIPUSP) e, finalmente, compararmos uns com os outros, derivando nossas conclusões sobre nosso tema: o papel preventivo das clínicas-escola em seu atendimento às crianças.

Segundo Rutter (1981), as pesquisas dele levavam às seguintes generalizações, entre outras:

1) Os problemas psicossociais infantis são muito mais comuns nos grandes centros urbanos do quenas zonas rurais, sendo essa diferença real e não um artefato de reconhecimento ou da migração diferencial;

2) As cidades não são todas iguais em relação ao aumento na taxa de incidência dos problemas infantis, sendo a implicação maior dessa afirmativa o fato de que a alta taxa não é inevitável e que nós podemos nos movimentar para previnir tal aumento;

3) As variações nas taxas dosproblemas infantis não são casuais mas sim sistematicamente relacionadas com diferenças em condições de vida, no planejamento de complexos habitacionais e na qualidade das escolas experimentadas pelas crianças e suas famílias.

Para objetivar as diferenças de condições de vida experimentadas pelas famílias, Rutter criou um índice quantitativo - o índice de adversidade familiar-, o qual abrange asseguintes variáveis: 1) discórdia conjugal; 2) falência financeira familiar; 3) distúrbios mentais ou criminalidade na família; 4) número excessivo de filhos e 5) superpovoamente da casa.

O leitor já poderá ter antecipado que quanto maior o número dessas variáveis dentro de uma mesma família, tanto maior seu escore em termos de adversidade familiar.

A partir de tal índice o autor pode incluirentre suas conclusões, a seguinte: os distúrbios psicológicos infantis são muito mais frequentes entre crianças que vivem com famílias de escores elevados nesse índice. E mais, que tal resultado independe da área geográfica onde as crianças vivem (urbana ou rural). Isto quer dizer que a probabilidade de distúrbio numa criança de uma família muito privada culturalmente (ou com alto escore deadversidade familiar) em zona rural era a mesma de crianças vivendo no ambiente altamente estressante de Londres, mas com igual escore de adversidade familiar.

Assim, pode-se dizer que da maior incidência dos itens de adversidade familiar nos grandes centros urbanos decorre a maior freqüência de problemas psicológicos infantis nesses centros.

Em outras palavras, as adversidades socioculturais...
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