O obsessivo e seus objetos de amor

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  • Publicado : 20 de março de 2013
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O Obsessivo e seus objetos de amor

Joel D’Or
As estruturas clínicas



No espaço de investimentos dos objetos de amor, o obsessivo freqüentemente dá o melhor de si mesmo, isto é, paradoxalmente tudo e absolutamente nada. “Tudo”, no sentido que ele pode tudo sacrificar; “nada”, na medida em que não aceita perder. Não se trata aí de duas disposições incompatíveis. Muito ao contrário, énesta medida que se estabiliza qualquer estratégia desejante do obsessivo.

De fato, esta estratégia gira essencialmente em torno da questão do gozo do outro, diante do que convém tudo controlar, isto é, neutralizar todos os sinais exteriores. Da mesma forma, para que nada saia do lugar, nada deve gozar, o desejo deve estar morto.

Nestas condições, já que o obsessivo não dá nada, ele não perdenada. Em contrapartida, ao menor sinal exterior de gozo observado no outro, ele está pronto a tudo sacrificar e a tudo dar para que as coisas voltem a seu estado inicial.

Se a problemática da perda é tão central na lógica obsessiva, é porque remete diretamente à falta. Nada perder, ou seja, evitar ser confrontado com a questão da falta, consiste então em neutralizar o desejo de uma certa maneira,já que este é precisamente constituído e continuamente relançado pela falta como tal. De maneira que o desejo, assim amordaçado, não é mais legislável pela articulação da menor demanda.

Compreende-se porque, em nome de um tal dispositivo de neutralização, o objeto desejado é investido de uma maneira singular.

Ele está hipotecado, até mesmo consignado, em uma posição tal que ocupapreferencialmente o lugar do morto. O obsessivo não cessa de instalar seu objeto de investimento amoroso neste lugar magnífico onde, para ser amável e ser amado, o objeto deve se fazer de morto. A máquina desejante do obsessivo só gira a todo vapor nesta condição. Condição única que permite a seu desejo não encontrar nenhuma inquietação. Se o outro está “morto”, ele não deseja; o obsessivo fica assimtranqüilo na medida em que o desejo é sempre desejo do desejo do outro. O imperativo constante que o anima em sua relação amorosa se deve ao fato de que o outro não deve nada demandar, pois se o outro demanda, é que ele deseja .

Da mesma forma, o obsessivo vai colocar em ato tesouros de energia para que ao outro não falte nada, e não seja portanto levado a sair de seu lugar. O universo do outro devepermanecer assim escrupulosamente ordenado. É através desta ordenação totalitária que o obsessivo controla e domina a morte desejante do outro. Os exemplos não deixam, no discurso do obsessivo masculino, de vir ratificar esta condenação à morte: “não lhe falta nada”, “ela tem tudo em casa”, “ela não precisa trabalhar”, etc.

Na medida em que o obsessivo parece se ocupar de tudo, sua parceriafeminina é cumulada e nada tem a demandar. Seu objeto está portanto presumivelmente ao abrigo de todo desejo.

De fato, tais sujeitos mantêm um gosto imoderado pelo encarceramento amoroso. Dispendem tudo, sem moderação, para que o outro resida em uma prisão de primeira classe. O embalsamamento e a mumificação do outro têm preço. É um luxo diante do qual o obsessivo não recua nunca já que nada ébastante bom para que o outro deve aceitar sua morte, mas ainda seria mal visto o fato de não se mostrar contente com tudo que se fez por ele com este objetivo.

O obsessivo é, de fato, muito sensível ao reconhecimento das homenagens que presta ao seu parceiro amoroso. Seria o cúmulo que, assim, ele não se mantivesse feliz em seu estado de morto: seria a mais iníqua das ingratidões. Nesta ocasião,como em outras, o obsessivo está muito preocupado com a justiça. Ora, não existirá maior injustiça que uma mulher que não demonstre reconhecimento diante desta solicitude mortífera que deve tanto agradá-la!

De uma maneira geral, a estratégia obsessiva consiste em se apropriar de um objeto vivo para transformá-lo em objeto morto, e cuidar para que assim permaneça. Na maior parte do tempo,...
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