O livro da bruxa

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Roberto Lopes

O Livro da Bruxa

Lopes, Roberto O livro da bruxa / Roberto Lopes. - São Paulo 2003.

Produção, revisão e diagramação para e-book: Ricardo Ferreira de Carvalho

Este livro é dedicado às bruxas. Sem elas o mundo seria bem menos interessante.

Prefácio

Sempre acreditei que as bruxas fossem uma lenda... ate recentemente. De fato, elas existem. Compartilhei uma pequenaviagem com uma delas e aprendi novas formas de ver o mundo. Também foi desfeita a imagem que eu tinha de uma bruxa: velha, magra, nariz comprido com uma verruga, queixo pontiagudo, cabelos desarrumados, dedos finos, olhos esbugalhados e vestida num manto preto com capuz. A bruxa que conheci é uma senhora de aparência absolutamente comum, bem no estilo das boas e sábias vovozinhas. Apósencontrá-la, em pouco tempo fui arrastado para uma aventura inesquecível. E só quando já estava irremediavelmente envolvido percebi a genialidade de seu disfarce. Ela também não usou um caldeirão nem ingredientes exóticos como olhos de cobra e asas de morcego para fazer uma poção. Mestre na arte da bruxaria, trabalhou apenas com elementos do cotidiano. Um desenho no papel, um carro velho atrapalhando otrânsito, crianças brincando, uma semente, um ventilador e outras coisas comuns transformaram-se diante de meus olhos em valiosíssimas lições. Contudo, só depois percebi qual tinha sido sua maior mágica. As bruxarias que tanto me impressionaram no início foram apenas fagulhas de algo muito mais intenso. Sua grande obra foi me transformar.

Então compreendi o enorme poder atribuído às bruxas nos contosde fadas. Elas podem, sem dúvida, transformar pessoas em sapos, ou viceversa. Felizmente o meu caso foi o segundo. Depois de conhecê-la, comecei a perceber como o mundo é um lugar fantástico, muito mais do que a maioria de nós imagina. Agora também sei que este livro é parte do encantamento que ela lançou sobre mim. Deste modo, fique ciente, caso pretenda prosseguir na leitura, que está searriscando a ser submetido ao mesmo feitiço. Depois não vá me acusar pelas transformações que podem acontecer em sua vida. Alegarei completa inocência.

Encontro

Nosso primeiro encontro aconteceu num final de tarde de primavera. Havia chovido, e o ar estava fresco. Alguns relâmpagos ainda iluminavam o céu, e os trovões chegavam como rugidos de um animal distante. O sol, antes de se pôr, tinhaencontrado uma fresta entre as nuvens e entrava horizontalmente pelas janelas do hospital. Eu estava terminando meu plantão, visitando os pacientes internados na enfermaria do terceiro andar. Consultei a última ficha. Era uma senhora de 86 anos com diagnóstico de pneumonia. Ela estava só em seu quarto, e quando entrei fui recebido com um grande sorriso. - Boa tarde, doutor - disse, ajeitando-se melhorna cama. - Boa tarde! Então a senhora é a famosa paciente com pneumonia brinquei. - Ainda não tão famosa, mas isso não é o mais importante - respondeu, bem humorada. - Como a senhora está se sentindo hoje? - Estou cada vez melhor. Não tive mais tosse, e após a chuva o ar está bastante agradável, sem poluição. Olhei as radiografias pulmonares feitas na véspera. A visualização dos brônquios eraevidente e demonstrava uma inflamação do tecido pulmonar, um dos sinais característicos de pneumonia.

Numa paciente jovem, um quadro deste tipo não é muito preocupante, pois os modernos antibióticos podem debelar rapidamente a infecção. Mas em pessoas idosas é necessário cuidado. Por isso, a idade acima de 65 anos é um dos critérios utilizados para internação nos casos de pneumonia. - Gostaria deauscultar seus pulmões. A senhora poderia sentar-se? perguntei. - Claro que sim - respondeu, já se levantando com uma agilidade incomum para sua idade. Ao examiná-la, percebi que os sons pulmonares estavam límpidos. Não havia nenhum ruído anormal detectável através do estetoscópio, e sua freqüência respiratória era absolutamente normal. Fiquei surpreso, pois pacientes idosos desenvolvem...
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