O jogo de truco .. teoria contigencial

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  • Publicado : 23 de novembro de 2011
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JOGO DE TRUCO: O BLEFE NA EXISTÊNCIA COTIDIANA NO TRABALHO

RESUMO: este trabalho discute o jogo de truco como elemento que permitiria a própria existência dos sujeitos jogadores ao tornar suas realidades minimamente suportáveis. O jogo é percebido na literatura acadêmica como sendo um elemento essencial para a atividade e socialização humana. No presente trabalho utilizamos uma abordagem que otrata como um mecanismo de evasão do real. Isso exige compreender o jogo como sendo um intervalo na vida cotidiana; intervalo constituído por espaço, tempo e regras definidas. A evasão do real é aqui tratada como estritamente necessária ao sujeito, como sendo uma função vital tanto para o indivíduo quanto para a sociedade ao aliviar as imposições paramétricas do social. Evasão, esta, que geraconforto e alívio e, portanto, minimiza os danos decorrentes dos conflitos inerentes da diferença entre os desejos do eu e os ditames sociais. Estudamos as dimensões simbólicas de um jogo de truco que acontece há cerca de 23 anos em uma organização empresarial. Jogavam entre seis e doze pessoas, dos mais variados níveis hierárquicos – do “peão do chão de fábrica” ao “vice-presidente da empresa”. Ametodologia de estudo utilizada foi a etnografia em organizações; a qual recebeu auxílio metodológico da observação participante, do diário de campo e de entrevistas em profundidade. A etnografia aconteceu ao longo de 12 meses durante o período de trabalho da empresa estudada (de 7:40 às 16:40). Nos dados da pesquisa destaca-se o “chefe dá tapa em peão e peão dá tapa em chefe”. A evasão do real detrabalho acontece principalmente através de brincadeiras, tais como a “cócegas x chutes”; da subversão das barreiras hierárquicas da empresa ocasionada pela hierarquia construída dentro do jogo; e pela possibilidade de alguns jogadores poderem ser no jogo aquilo que desejariam ser na sua própria realidade. Além disso, percebe-se no jogo mecanismos de alívio das pressões da realidade de trabalho.Jogo e trabalho parecem se confundir, misturar seus limites; e os efeitos do jogo parecem se arrastar cotidiano afora, ainda que o ato de jogar tenha existência provisória. A impossibilidade de tornar inteligível o limite entre realidade e jogo somada à aproximação com aquilo que se deseja ser parece tornar o cotidiano de trabalho minimamente suportável para os jogadores estudados. Os jogadoresparecem significar sua realidade de trabalho através de movimentos do jogo que o conduzem a ser aquilo que sempre desejaram ser nessa realidade. O jogo apresenta-se como um elemento efêmero, como um conforto de curto prazo, podendo se tornar alienante ao ser o único objetivo do sujeito; e, ao mesmo tempo, também parece ser uma esfera de orientação própria e estritamente necessária ao indivíduo.

1.INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é discutir o jogo de cartas, mais especificamente o Truco, como elemento que permitiria aos jogadores não apenas expressarem aquilo que desejam ser, mas que também possibilitaria suas próprias existências ao tornarem suas realidades minimamente suportáveis.
A literatura sobre jogos – que aqui em nada se relaciona com a teoria dos jogos daeconomia clássica – aponta-os como elemento essencial para a atividade e socialização humana. Poderíamos, pois, apontar duas abordagens teóricas nesse sentido: uma o designa como totalidade de imagens, símbolos ou instrumentos necessários para o funcionamento do conjunto social; enquanto a outra o discute como sendo um mecanismo de evasão do real.
Os autores da primeira abordagem citada têmcompreendido os jogos como canais profícuos de comunicação e intervenção sobre a formação de sujeitos. Os jogos, então, teriam a função de preparar os sujeitos para a vida em sociedade (RETONDAR, 2007) à medida que os educam para a obediência de regras. ‘Regras e jogo’ seria resignificada ao longo dos vários jogos da vida do sujeito respectivamente em ‘institucionalizações e sociedade’; ou seja,...
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