O homem e o tempo

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  • Publicado : 27 de novembro de 2011
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A modernidade não sabe o que fazer com o tempo. Ele sobra ou falta; eis tudo. Quantificado, mecanizado, o tempo morre enquanto transição, mudança, promessa, novidade. Fica o tempo como espaço a ser preenchido; o tempo que se mata: passa-tempo.
Sintomas disso são os velhos e os jovens de hoje. Igualmente, não se sabe o que fazer com eles.Consequentemente, “o idoso deve regredir à ‘melhor idade’, e o jovem deve imitar um adulto o quanto antes, para que enfim fiquemos livres deles!” – assim pensa o moderno. O que os assemelha é que, desse ponto de vista tão “atual”, devem aprender a negar em si mesmos aquilo que os caracteriza: a passagem do tempo, o serem épocas de transição no homem.
Não se compreendendo, não compreendem o outro. Ovelho critica o jovem por sua impulsividade, mas gostaria de ter algo da juventude dele. O jovem não aceita as sugestões dos mais experimentados, mas gostaria de encontrar alguma continência para si (a encontra geralmente na pura oposição). Quem tem razão?
Ambos terão as suas. A bem da verdade, é difícil alguém não ter razão. De nosso ponto de vista todos acertamos, por pouco que seja. Por outrolado, dificilmente se estará certo ao negar-se a si mesmo. Sem contar o fato de que uma tal negação dificilmente obteria resultados positivos (por motivos óbvios), como as partes envolvidas podem dar o melhor de si, negando o que os caracteriza? Como podem vivenciar e colher para si o melhor de sua época se se começa por renegá-la?
Quiçá o melhor passe longe disso. Velhos e moços podendocompletar-se mutuamente, o jovem buscando no velho a acolhida e a experiência em ser passagem que aquele justamente pode dar; o velho aliando-se à vida e ao futuro, deixando o melhor de si naqueles que ficarão quando ele partir. Mas para isso é preciso, como ficou dito, entender a si mesmo, acolher-se enquanto passagem. E é isso exatamente o que a modernidade não quer.
Também ela terá suas razões para isso.Afinal, não somos especializados precisamente em “gerir” todos aqueles que lutam dentro de si com a vontade de “não ser assim”, de “ser de outro modo”, todos os que gostariam de “não ser si mesmos”? Quase tudo o que produzimos pode ser entendido dessa forma (evoluções na saúde, novas tecnologias, mercadorias, etc). Finalmente, talvez também os “sujeitos da passagem”, velhos e moços, terão suasrazões: não é fácil abrir-se ao tempo. Não é nada fácil perceber a morte, o futuro, a indeterminação, como necessários à vida. Assim, abraçamos o clichê; é mais fácil.
Eles são muitos: “cada um é uma vida diferente; como poderíamos aprender com o outro?” (como se o outro não nos formasse desde a mais tenra idade!); “os tempos mudaram, e os antigos nada tem a nos oferecer” (como se a própriapassagem do tempo não persistisse como problema!); “sim, é verdade, nós erramos, devemos esquecer de nós mesmos e aprender com os mais novos, que são ‘mais preparados’” (como se houvesse faculdade para a vida!); “os jovens não querem nos obedecer, que podemos fazer senão abandoná-los?” (como se fosse uma questão de submissão, e não de exemplo!), etc.
O clichê é sempre a anulação do tempo. Se os jovensestão desconfortáveis em sua situação de intermezzo entre a infância e a vida adulta, disperse-mo-os em compromissos, obrigações, prazeres. O importante é que ele não perceba a si mesmo, a sua condição. Se o idoso não se preparou para a velhice, se não acreditou que o tempo passaria para ele, se afastou amigos e família como se não houvesse futuro, mostremo-lhe a alegria, a festa, o descompromissocom seu passado. O importante é que, também ele, esqueça afinal sua condição. Mas – pergunta-se: e como se vive, de fato, a passagem?
Sim, é difícil não ter razão. Melhor que jovens perdidos são jovens ocupados; mais valem idosos divertindo-se do que idosos abandonados, certamente. Mas não seria ainda melhor poder viver isso que se processa dentro deles, neles mesmos, poder dar acolhida atenta...
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