O homem que confundiu

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  • Publicado : 28 de maio de 2012
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O HOMEM QUE CONFUNDIU SUA MULHER COM UM CHAPÉU

O dr. P. era um músico excelente, fora célebre como cantor durante muitos anos e depois, na faculdade de música de sua região, como professor. Foi ali, no relacionamento com seus alunos, que certos problemas foram observados pela primeira vez. Às vezes um aluno se apresentava e o dr. P. não o reconhecia ou, especificamente, não reconhecia seurosto. No momento em que o aluno falava, o dr. P. reconhecia-o pela voz. Incidentes como esse multiplicaram-se, causando embaraço, perplexidade, medo e, às vezes, situações cômicas. Pois não só o dr. P. cada vez mais deixava de reconhecer rostos, mas ainda por cima via rostos onde eles não existiam: na rua, jovialmente, à la mr. Magoo, ele afagava o topo de hidrantes e parquímetros pensando que eramcabeças de crianças; dirigia-se cordialmente aos puxadores esculpidos dos móveis e se espantava quando eles não respondiam. A princípio, as pessoas, e até mesmo o dr. P, riam dessas confusões esquisitas, julgando que eram gracejos. Pois ele não tivera sempre um senso de humor peculiar, dado a chistes e paradoxos em estilo zen? Suas capacidades musicais continuavam deslumbrantes como sempre; ele nãose sentia doente - jamais se sentira melhor na vida —, e os enganos eram tão risíveis, e tão originais, que não poderiam ser sérios ou significar algo grave. A idéia de que havia "algo errado" só foi surgir uns três anos depois, quando o diabetes se manifestou. Ciente de que o diabetes poderia afetar-lhe a visão, o dr. P. consultou um oftalmologista, que fez um histórico minucioso e lhe examinouatentamente os olhos. "com seus olhos não há nada de errado", concluiu o médico. "Mas há problema nas partes visuais de seu cérebro. O senhor não precisa de
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meus serviços, precisa consultar um neurologista." E assim, em conseqüência desse parecer, o dr. P. me procurou.
Assim que o vi, em poucos segundos ficou evidente que não havia traço algum de demência na acepção comum do termo. Ele eraum homem muito culto e simpático, falava bem, com fluência, imaginação e humor. Eu não podia imaginar por que ele teria sido encaminhado à nossa clínica.
E no entanto havia alguma coisa meio estranha. Ele ficava de frente para mim quando falava, estava orientado para mim, porém existia algum problema — era difícil dizer. Ele me encarava com os ouvidos, acabei por constatar, mas não com os olhos.Estes, em vez de me olhar, de me fitar, de me "acolher" da maneira normal, faziam estranhas fixações súbitas — em meu nariz, minha orelha direita, desciam até meu queixo, subiam para meu olho direito — como se estivessem notando (ou até mesmo estudando) essas características individuais, porém sem enxergar o rosto inteiro, suas expressões mutáveis, "eu" como um todo. Não tenho certeza de terpercebido isso totalmente na época — havia apenas uma provocadora estranheza, alguma falha na interação normal entre olhar e expressão. Ele me via, corria os olhos por mim e, no entanto...
"Qual parece ser o seu problema?", perguntei por fim.
"Nenhum que eu saiba", ele replicou com um sorriso. "Mas as pessoas parecem achar que há algo errado em meus olhos".
"Mas o senhor não reconhece algum problemavisual?"
"Não, não diretamente, mas de vez em quando cometo erros".
Saí da sala por alguns momentos para conversar com sua esposa. Quando retornei, o dr. P. estava sentado placidamente perto da janela, atento, ouvindo em vez de olhar para fora. "O tráfego", disse ele, "sons das ruas, trens à distância — eles compõem uma espécie de sinfonia, não acha? Conhece a Pacific 234 de Honegger?"
Quehomem mais simpático, pensei comigo. Como é que pode haver algum problema sério? Ele permitiria que eu o examinasse?
"Sim, mas claro, doutor Sacks."
Acalmei minha inquietação, e talvez também a dele, na tranqüilizadora rotina de um exame neurológico — força muscular, coordenação, reflexos, tono... Foi enquanto examinava seus reflexos — ligeiramente anormais do lado esquerdo — que ocorreu a...
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