O cotidiano na geografia

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O COTIDIANO NA GEOGRAFIA, A GEOGRAFIA NO COTIDIANO Hanilton Ribeiro de Souza1/ UNEB – SEC/BA hrsouza@uneb.br

INTRODUÇÃO
Mas como é possível observar alguma coisa deixando à parte o eu? De quem são os olhos que olham? Em geral se pensa que o eu é algo que nos está saliente dos olhos como o balcão de uma janela e contempla o mundo que se estende em toda a sua vastidão diante dele. Logo: há umajanela que se debruça sobre o mundo. Do outro lado de lá está o mundo; mas e do lado de cá? Também o mundo: que outra coisa queríamos que fosse? Com um pequeno esforço de concentração, Palomar consegue deslocar o mundo dali de frente e colocá-lo debruçado no balcão. Então, fora da janela, que resta? Também lá está o mundo, que para tanto se duplicou em mundo que observa e mundo que é observado. Eele, também chamado “eu”, ou seja, o senhor Palomar? Não será também ele uma parte do mundo que está olhando a outra parte do mundo? Ou antes, dado que há um mundo do lado de cá e um mundo do lado de lá da janela, talvez o eu não seja mais que a própria janela através da qual o mundo contempla o mundo. Para contemplar-se a si mesmo o mundo tem necessidade dos olhos (e dos óculos) do senhorPalomar. (CALVINO, 1994:102)

O senhor Palomar, personagem do escritor Ítalo Calvino, descobre que ao observar o mundo precisa também se inserir nesta observação, pois também é parte do mundo que está observando, então, os nossos olhos são as janelas por onde o mundo contempla o mundo, pois somos constituintes da totalidade. Na maioria das vezes, e até inconscientemente, ou por falta de uma apreensãomais holística da realidade, somos direcionados para uma análise e compreensão dicotômica das coisas, ou seja, apartamos o objeto do pesquisador/observador e vice-versa, sem perceber que não há como fazer

- Mestre em Cultura, Memória e Desenvolvimento Regional. Professor de Prática de Ensino e Estágio Supervisionado em Geografia do Curso de Licenciatura Plena em Geografia da UNEB - Universidadedo Estado da Bahia (Campus V – Santo Antônio de Jesus/BA). Professor de Geografia do Ensino Médio (Colégio Estadual Polivalente de Castro Alves – SEC/BA).

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uma observação e apreensão plena da realidade isolando as partes, pois também somos constituintes do todo. Essa separação e compartimentação do saber, proveniente do racionalismo, têm produzido uma visão fragmentada da realidade eprovocado inúmeros problemas para a apreensão da totalidade e para a busca de soluções e/ou alternativas para os problemas que se apresentam na modernidade. É preciso que compreendamos, assim como fez o senhor Palomar, que também somos parte do mundo que nos propomos a analisar! Na escola e no ensino da geografia também fazemos essa separação entre o conhecimento produzido e a nossa realidadecotidiana, ou seja, a nossa vida, bem como nos isolamos em nossa “ilha” de conhecimento – nossa disciplina, e não pensamos no todo. Quantas vezes discutimos os problemas da educação e do ensino, enxergando nas esferas exteriores (governo, sociedade, direção, pais, alunos e outros professores/disciplinas) as possíveis causas de tais problemas, esquecendo-nos, às vezes, que somos parte também de todo esseprocesso. É preciso que nós, professores de geografia, rompamos com essa fragmentação, a fim de pensarmos a escola/ensino na totalidade, e o conhecimento geográfico como uma importante parte, mas não única, dessa realidade. Para isto, devemos apreender a importância da interdisciplinaridade e da contextualização do conhecimento geográfico na vida do aluno, visando a sua inserção plena e ativa noespaço vivido. Segundo Silva:
Muitas vezes os geógrafos têm deixado de refletir sobre a escola. Cada escola é como um grande barco. Certamente, enquanto barco, se parece com outros barcos, mas nunca é exatamente igual, pois tem a sua particularidade resguardada pelas diferenças da sua tripulação. Neste barco, estão pessoas que objetivam chegar a algum lugar. Podemos, então, afirmar que todos...
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