O corpo vivo, o corpo morto

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  • Publicado : 19 de janeiro de 2012
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O corpo vivo, o corpo morto
Toda teoria do corpo é inútil, diziam Horkheimer e Adorno em suas notas sobre a “Dialética do Iluminismo”: o corpo continua sendo o cadáver no qual ele foi historicamente transformado.
Isto implica uma dupla herança: o conceito e a visão do corpo têm sua origem na teologia do corpo do Senhor morto e desaparecido, e naquela medicina que obtém seus conhecimentosfundamentais por meio da dissecação de cadáveres do teatro anatômico. Ambas, numa mistura como em Rembrandt, dominaram de tal forma os conceitos de corpo na Europa, que até hoje não se conseguiu desenvolver uma teoria do corpo vivo que seja, ela mesma, viva.
É preciso falar também de teorias mortas que conseguem destruir tudo o que tocam. A morte de Deus já se tornou há muito um fato da história daciência, ela própria atolada em conceitos vazios e idéias cegas.
E existe ainda um outro fenômeno que só recentemente começou a revelar seus imensos efeitos: a silenciosa transformação do corpo em uma imagem do corpo, a qual nega a diferença entre imagem e corpo. O imaginário assim surgido dá início, por um lado, à herança de poderes que foram dominantes na teoria e na prática medieval(teologia) e moderna (medicina). Por outro lado, tal imaginário substitui os corpos em sua realidade, tornando-os virtuais. No entanto, permanece por ora em aberto a quem compete dirimir a questão acerca da ausência e dos mortos.
A imagem do corpo atualmente em voga nega seu caráter de imagem. Num último lance totalitário, ela afirma ser tudo, razão pela qual o corpo, e na verdade cada corpoisoladamente, dela dependeria e por ela deveria guiar-se. É esse o terror atual da visibilidade que tematizamos há anos, e que hoje é assunto do presente congresso.
Ainda nos perguntamos como é possível que, decorridos alguns milênios após a pacificação do homem, ainda se registre um número aparentemente crescente de explosões de violência inesperadas em todo o globo terrestre. Kant, juntamente comoutros iluministas, desenvolveu a filosofia histórica da crescente moderação da natureza humana, segundo a qual o homem tem sua humanidade paulatinamente produzida através da civilização, da disciplina e da humanização. Dentro desse contexto, a violência foi colocada somente no começo, de forma que se deve pressupor um movimento histórico necessário, o qual leva da barbárie à humanidade. O sentidomais profundo do desenvolvimento enquanto categoria era a idéia de que a evolução e o desenvolvimento culminam na perfeição de uma humanidade apaziguada. Norbert Elias ainda repetiu e reforçou a tese da linearidade da história que evolui do corpo violento para o espírito pacífico, ou dos sentidos próximos (não passíveis de serem civilizados e disciplinados) para os sentidos distantes, principalmentepara o olho emancipado. Os homens chegam a si mesmos como uma imagem clara e radiante, num olhar que tudo abrange. Per aspera ad astra.
O padrão de raciocínio e discussão segundo o qual a violência seria sempre arcaica e faria parte da natureza humana era até bem pouco tempo considerado por uma grande maioria como algo natural: no início, o homem é um animal e, no final, um ser humano; seu corpoé escuro e imperscrutável, seu espírito é como a luz e transparente. No entanto, tal argumentação não conseguiu se estabelecer como conclusiva. Foi preciso admitir que, de modo geral, os resultados da civilização e da disciplina não passavam de uma máscara por detrás da qual a “velha fera” pode ser facilmente reconhecida. Mas não se podia, a despeito de todos os revezes, perder a esperança de sealcançar, ainda que num futuro longínquo, a radical pacificação da natureza humana.
Atualmente, pouco restou dessa esperança. Nenhum século produziu tanta violência como o século XX – com suas guerras, seus massacres, e com o extermínio de povos, mas também nas relações com o Outro ou consigo mesmo. A barbárie e a monstruosidade parecem ter aumentado na mesma medida em que reforçamos nossos...
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