O confronto com o naturalismo

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  • Publicado : 26 de novembro de 2011
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O Confronto com o Naturalismo
Pensar em Os Maias, em função da generalização da ambiguidade, da instauração da opacidade no romance, acaba inevitavelmente por conduzir o leitor ao encontro com a problemática do naturalismo, enquanto estética norteadora de uma grande parte da obra queirosiana, e também, em certa medida, deste romance, mas estética com a qual o autor se confronta em termosambíguos a partir de um certo momento. Ora, o romance em questão vai representar um local por excelência dessa confrontação, correspondendo a um momento de interrogação do seu autor em relação ao naturalismo, gerador, portanto, de ambiguidade. [...]
São ou não são Os Maias um romance realista-naturalista? Ou, se preferirmos, ter-se-á Eça mantido fiel ao seu ideário estético naturalista neste romance?
Ébem claro que não. Os Maias serão, como já dissemos, o grande romance de questionamento do naturalismo, de mudança de rumo do Eça naturalista. E é curioso como ele se apercebe do falhanço da sua obra enquanto projecto romanesco à maneira naturalista quando, em carta a Oliveira Martins, datada de Bristol, 12 de Junho de 1888, diz: «Os Maias saíram uma coisa extensa e sobrecarregada, em dois grossosvolumes! Mas há episódios bastante toleráveis. Folheia-os, porque os dois tomos são volumosos demais para ler. Recomendo-te as cem primeiras páginas; certa ida a Sintra; as corridas; o desafio; a cena do jornal A Tarde; e sobretudo, o sarau literário. Basta ler isso, e já não é pouco. Indico-te, para não andares a procurar através daquele imenso maço de prosa.»(1) Para além da habitualsubestimação da sua obra, típica de Eça, repare-se que são aqueles episódios mais fiéis a uma prática realista cuja leitura recomenda ao amigo, não sendo feita, note-se, qualquer alusão àquilo que, na época, deve ter provocado maior reacção por parte dos leitores, reacção que Eça esperaria, evidentemente - o episódio trágico do incesto. O que vale a pena ler em Os Maias é aquilo que mais abertamente se insereno domínio da crónica familiar ou da crónica de costumes à maneira naturalista. Ora isto parece confirmar não só a nossa convicção de que Eça é ainda um naturalista, no momento em que se lança na redacção daquele romance, quanto a de que o próprio projecto de Os Maias - Episódios da Vida Romântica, é ditado ainda pela ambição naturalista de fazer o inquérito e a pintura da vida e da sociedadeportuguesas, a partir da história de uma família integrada nessa sociedade, a família Maia, ao longo das suas três últimas gerações. J. do Prado Coelho, aliás, define a «arquitectura do romance» a partir do seu título e subtítulo: «justifica-se o título: não Carlos da Maia ou Os Amores de Carlos, mas Os Maias na medida em que o herói (mais precisamente o anti-herói) aparece integrado numa família,explicado por antecedentes familiares; e também porque a sua tragédia implica a morte do avô, a ruína da família inteira. [...] Também se justifica o subtítulo, «Episódios da vida romântica», porque, dada a largueza da concepção que o ditou, o romance nos oferece múltiplos casos, cenas, atitudes, considerados típicos de um romantismo que continua vivaz em 1875-1876.»(2) Digamos, o projecto criadorde Os Maias passa por uma dupla motivação naturalista: pintura crítica da vida portuguesa, marcada ainda por um gosto e uma sensibilidade românticos e concepção de um herói integrado numa determinada família com um determinado passado e num certo meio social.
Mas isto não significa, de maneira nenhuma, que estejamos perante um romance naturalista. O que também não estamos com certeza é perante umromance alheio a uma óptica naturalista. Uma tal óptica, ao impregnar o romance enquanto projecto, insinua-se naturalmente em alguns aspectos ligados à concepção, caracterização e apresentação de certas personagens, às motivações que explicam certos comportamentos ou ao modo como certas idiossincrasias individuais ou rácicas são perspectivadas pelo narrador.
Ao falar-se de naturalismo a...
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