O cidadao de papel

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Cidadania
■ Sintomas da crise
Quando andamos pela cidade, encontramos diariamente meninos de rua. Alguns
nao fazem nada. Outros estao lavando ou cuidando de carros. Sao engraxates ou
vendedores de balas nos semaforos.
Esta cena se tornou tao comum que nem chama mais a atencao. Prepare-se, agora,
para uma pergunta que vai parecer maluca:
Existe algo de comum entre você e o menino de rua?Certamente veio a sua cabeca a imagem de um menino dormindo na rua,
apanhando da policia. Usa roupas velhas, esta descalco, magro e sem tomar banho
ou escovar os dentes. E ai, voce vai achar a pergunta maluca mesmo. Afinal, voce
tem casa, estuda, come tres vezes por dia, passa as ferias na praia ou no campo.
Suspeito que a pergunta pode lhe parecer tao boba que voce ja pensou em largar aleitura deste livro. Mas se voce se der ao direito de ter duvida, vai descobrir muitas
coisas. Vera que, para ter a resposta, precisara mergulhar num conceito muito
importante para o ser humano: a cidadania. E precisara olhar nao apenas para as
ruas, mas para dentro de sua propria casa. Ate dentro de seu quarto.
Nota-se a ausencia de cidadania quando uma sociedade gera um menino de rua.
Ele e osintoma mais agudo da crise social. Os pais sao pobres e nao conseguem
garantir a educacao dos filhos. Eles vao continuar pobres, ja que nao arrumam bons
empregos. E ai, seus filhos tambem nao terao condicoes de progredir. E a famosa
pergunta:
Quem nasceu antes: o ovo ou a galinha?
O garoto e pobre porque nao conseguiu estudar em uma boa escola ou e porque
nao estudou que continua pobre?Esse circulo vicioso nao atinge so os pobres. Revela uma sociedade que fecha
oportunidades a todos, inclusive para voce.
Veja que informacao interessante: em 1991, 57% dos alunos que terminaram o
segundo grau no Japao moravam em apartamento proprio. Lembre-se que quando
acabou a Segunda Guerra Mundial, em 1945, o Japao estava destruido. Tem mais:
neste seculo uma imensa onda de migracaojaponesa veio para ca, fugindo da
miseria. Agora, olhe a sua volta, entre seus colegas, e responda:
Quantos moram em apartamento próprio?
Por que para um jovem brasileiro essa possibilidade do estudante japones parece
uma regalia inacreditavel? Tambem e inacreditavel para um jovem japones uma
escola sem computadores.
E a mesma sensacao de incredulidade que teria um aposentado brasileiro ao sabercomo vivem os velhos no Japao. Eles estao cercados de conforto material e,
sobretudo, respeito dos mais jovens. E o velho japones consideraria inacreditavel a
realidade dos aposentados brasileiros. Dos 12, 6 milhoes de aposentados que existem
no Brasil, dez milhoes recebem ate um salario minimo.
Estamos vendo dois extremos da perversidade social. Os mais fracos sao as
maiores vitimas: ascriancas e os velhos. E uma sociedade que nao respeita suas
criancas e seus velhos mostra desprezo ou, no minimo, indiferenca com seu futuro.
Vamos ao obvio: todo mundo ja foi crianca e sera velho um dia. Portanto, ninguem
esta seguro.
SEIS ANOS NAS RUAS
A familia de Margaret foi para as ruas do Rio de Janeiro, em 1981, quando seu
pai foi embora.
"Minha mae nao tinha como sustentar a gente.Eramos quatro meninas.
Vendiamos doces nas ruas. Um dia nos quatro nao conseguimos dinheiro com
as vendas. Minha mae decidiu que deveriamos dormir onde estavamos.
Ficamos ali para fazer mais dinheiro. Quando voltamos, a casa estava toda
quebrada. Desde aquele dia, ficamos na rua. "
"Entao minha mae teve mais um filho, quando moravamos na rua. Veio mais
uma menina. Minha mae ficou doente depoisdo parto. Foi embora com o bebe.
Ela me deixou para cuidar de minhas irmas. So reencontramos ela tres anos
depois. "
"Algumas de minhas colegas nas ruas foram violentadas por policiais. Nunca
aconteceu comigo porque eu nao sou uma menina de rua. A melhor coisa do
mundo e estar junto de sua mae. Nos podemos ter frio ou fome, mas quando
estamos junto da mae, estamos protegidos. "
Margaret...
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