A teoria do romance - george lukacs

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  • Publicado : 9 de agosto de 2012
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Diante de um mundo que se apresenta ao homem como não mais regido por uma ordem pré-estabelecida, totalizante, fechada em si mesma, Georg Lukács aponta o romance como “a epopeia de uma era para a qual a totalidade extensiva da vida não é mais dada de modo evidente” (p. 55). No advento da era moderna, o homem se descobre como porta-voz de seu próprio destino, resultado de uma descoberta dolorosa:o mundo moderno é um mundo abandonado por Deus. Em A teoria do romance, Lukács propõe uma leitura histórico-filosófica para compreender o surgimento de uma nova forma literária, a tipologia romanesca, como fruto originário de seu tempo. Se, durante a era clássica, a forma predominante – a epopeia – reflete em sua composição a objetividade e a totalidade de uma vida pré-destinada por uma ordem deâmbito metafísico, nessa modernidade abandonada por Deus não há mais espaço para essa forma perfeita e total em si mesma: subjetividade e fragmentariedade, produtos de uma realidade que agora se apresenta como problemática, são incorporadas à estrutura do novo gênero.
E, no entanto, é preciso deparar-se com uma questão para nortear nossa leitura d’A teoria: se por um lado o romance incorporaà sua forma tais características, diretamente influenciado por seu tempo, por outro, busca ainda assim a totalidade deixada para trás com a forma épica. Assim, pergunta-se: como ler o romance na sua busca pela objetividade e totalidade perdidas, como uma epopeia da era moderna, dada limitação imposta por seu momento histórico de produção? Arriscamos dizer que Lukács não propõe respostas, masindagações. O gênero romanesco, “abstrato” (p. 75), tenta alcançar a objetivação por sua forma. No entanto, não há uma única leitura generalizante e válida para a forma romanesca que dê conta de compreendê-la do seu surgimento à contemporaneidade. Sua análise incidirá, portanto, na leitura de quatro possíveis “tipos” romanescos em “Ensaio de uma tipologia da forma romanesca”, baseando-se em D. Quixote(Cervantes), A educação sentimental (Flaubert), Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister (Goethe) e Guerra e paz (Tolstói).
Para uma análise aprofundada da composição formal do romance, Lukács nos revela “uma fusão paradoxal de componentes heterogêneos e descontínuos numa organicidade constantemente revogada” (p. 85), isto é, uma forma paradoxal que, se por um lado refuta a organicidadehermética e totalizante por seu caráter de abstração e subjetividade, ela precisa, contudo, encontrar um modo de alcançar a unidade e a objetividade épica de figuração tão almejada, o que se daria por meio da ironia (pp. 74-5, p.86, 92-3, 95-6). Temos aqui uma duplicidade: em termos de conteúdo, é intrínseco ao romance o caráter de subjetividade e abstração, tanto pelo lado da autoria quanto peloda receptividade, mas o modo como o romance tenta superar tal aspecto é pelo âmbito da forma: a forma irônica de composição.
Em “O idealismo abstrato”, a leitura proposta por Georg Lukács para o primeiro grande romance moderno, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, parte exatamente dessa compreensão histórico-filosófica no momento em que Cervantes dá vida ao cavaleiro errante DomQuixote. Se, nesse novo mundo da era moderna, musas e deusas não cantam mais o destino dos homens, se é dado “o abandono do mundo por Deus” (p. 99), se não é mais possível ler “destino” e “ânimo” como “nomes de um mesmo conceito” (pp. 86, 89), como já disse Novalis, é preciso abandonar a “idealidade irreal da alma em prol de um controle da realidade” (p. 87) – o que, formalmente, se constituiironicamente no romance de Cervantes. Não é à toa que o autor de Quixote realiza uma paródia aos romances de cavalaria da Idade Média: a idealização transcendente presente neles não condiz com a realidade que se apresenta na transição do medievalismo para a era moderna. Ele diz:


É mais que um acaso histórico que o Dom Quixote tenha sido concebido como paródia aos romances de cavalaria,...
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