A sobrevivencia

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  • Publicado : 4 de maio de 2013
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Esta lógica floreada de dignidade do trabalho é, para alguém como Bertrand Russell, uma mera ilusão convenientemente orquestrada e empregada para ludibriar os trabalhadores ao longo de várias gerações. Uma ilusão patrocinada pelas elites, pois estabelecer este tipo de percepção serviu exatamente para aplacar os pobres, isto é, foram os ricos quem pregaram o discurso da dignidade do trabalho paraos pobres “enquanto tratavam de se manter indignos a respeito do mesmo assunto”. O trabalho enobrece, mas os nobres não trabalham – ou pelo menos não realizam a mesma natureza de trabalho a qual se dedicam os pobres. Então emerge uma distinção das atividades desempenhadas pelas classes sociais.

Desde os tempos clássicos do florescimento da cultura ocidental, o trabalho veio passando porconstruções e interpretações variáveis. Se no período pré-socrático (VI a V a.C.) havia uma noção que associava de maneira harmoniosa técnica e especulação abstrata, esta visão não durou através dos períodos seguintes. Era comum na Grécia de então que as classes ligadas à manufatura, ao artesanato e atividades comerciais tivessem respeito social e até detivessem o poder nas polis. Sólon, um grandereformador das leis em Atenas, chegou a estabelecer que nenhum filho teria obrigação de garantir a subsistência e o amparo a seu pai na velhice se este não houvesse lhe ensinado um ofício, indício que demonstrava a importância de uma profissão e do trabalho na sociedade grega naquela época. Um conflito conceitual em torno do trabalho foi travado ainda na Grécia. De um lado debatia-se a noção de que otrabalho deveria ser valorizado por ter relação ao conhecimento, de outro lado, contudo, o trabalho era desvalorizado como uma atividade inferior relativa à sua prática física irrefletida e mecanizada e a segunda perspectiva acabou prevalecendo. A técnica se afastou da abstração, o trabalho físico, em conseqüência, se divorciou do trabalho intelectual. A escravidão e o emprego de cativos nodesempenho dos trabalhos físicos foi o grande fator a deteriorar o valor do trabalho para a cultura ocidental. Deste modo, o trabalho físico passou a ser desempenhado por indivíduos dos estratos sociais mais pobres e inferiorizados enquanto os trabalhos de natureza intelectual couberam a quem estava em condições de dirigir a vida social, política e econômica das sociedades. O que se verificou em Roma apósa consolidação de suas conquistas no século II está também relacionado a este fato. A noção positiva de “labor” foi suplantada pela lógica aviltante da noção romana de “trabalho”, termo que deriva de um instrumento utilizado para dar tração a bois empregados no transporte de cargas, o “tripalium”. Esta noção sobreviveu aos tempos e a separação entre os tipos de trabalho também permaneceu viva.Há aquelas atividades que possuem um caráter mais operacional e físico, atividades que o antropólogo e economista Thorstein Veblen classificou como industriais e que Bertrand Russel considerou como um tipo de trabalho que “modifica a posição dos corpos na superfície da Terra ou perto dela”. Estes trabalhos físicos, repetitivos e corriqueiros, trabalhos que não exprimem proeza ou imponência sãoexecutados pelos pobres, a maioria da massa trabalhadora. O segundo tipo é “o que manda que outras pessoas façam o primeiro”, trabalhos que abrangem atividades governamentais, militares, religiosas, de controle e exploração de propriedades, enfim, atividades que se destacam e se distinguem dos trabalhos físicos ordinários. O segundo tipo das atividades é encarado como sendo composto por ofíciosnobres, dignos, escapam à vulgaridade própria das atividades industriais mesmo com a falaciosa pregação de que “o trabalho enobrece”. E não é casualidade que o primeiro tipo de trabalho seja “desagradável e mal pago” enquanto o segundo seja “agradável e muito bem pago”, como mais uma vez distingue Bertrand Russell. Esta distinção é muito bem difundida tanto entre a elite quanto entre a classe...