A reforma da onu

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 15 (3593 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 11 de dezembro de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
A Reforma da ONU

Celso L. N. Amorim

Texto disponível em www.iea.usp.br/artigos
As opiniões aqui expressas são de inteira responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente as posições do IEA/USP.

A Reforma da ONU1
Celso L. N. Amorim

Uma apresentação dos esforços em curso de reforma das Nações Unidas - tanto
aqueles que se referem à modernização da Organização, promovidospelo Secretário-Geral
Kofi Annan, como os que se relacionam à ampliação do Conselho de Segurança - não pode
prescindir de uma análise, ainda que breve, da evolução recente do quadro internacional e
de sua repercussão sobre o funcionamento da ONU.
Como sugere o editor da revista "Foreign Affairs", Fareed Zakaria, a História das
Nações Unidas conheceu dois momentos privilegiados: o primeiro, logoapós o fim da II
Guerra Mundial, e o segundo após o fim da Guerra Fria. Em ambos os casos, durante um
curto período, as oportunidades abertas para a diplomacia multilateral pareceram
ilimitadas.
O fim da Guerra Fria não teve seu Congresso de Viena, nem seu Versalhes ou sua
Conferência de São Francisco. Mas a reunião de cúpula do Conselho de Segurança de
janeiro de 1992, a única na Históriado órgão em mais de meio século de existência, pode
servir de ponto de partida para um exame das marchas e contra-marchas pelas quais vem
passando a Organização, na atual década, ao procurar ajustar-se a um cenário mundial
ainda em transição. A declaração adotada pelos quinze Chefes de Estado e Governo dos
países, que então integravam o Conselho de Segurança, se regozijava ante "as melhoresperspectivas para alcançar a paz e segurança internacionais desde a criação das Nações
Unidas".
A cimeira do Conselho de Segurança de princípios de 1992 pode ser vista, assim,
como o grande encontro multilateral celebratório de uma nova era, tornada possível pela
dupla vitória do "ocidente" contra o comunismo da União Soviética e contra a agressão
iraquiana. Embora estivesse claro que umaúnica potência - os Estados Unidos - se havia
transformado no centro de uma estrutura mundial de poder que tendia para a unipolaridade,
não parecia haver incompatibilidade entre essa circunstância e a revitalização do
multilateralismo onusiano.
O Secretário-Geral Boutros-Ghali, que acabara de assumir o cargo, captaria essa
euforia em seu relatório intitulado "Uma Agenda para a paz", divulgado emmeados de
1

Conferência proferida no IEA em 2 de abril de 1998.

2

1992. Sob o signo da ideologia ativista (alguns diriam intervencionista), desse documento
proliferariam as operações de paz das Nações Unidas, que passariam a atuar nos mais
variados quadrantes, ocasionando o que a revista "the Economist", em recente artigo,
apelidou de uma fase de "imperialismo da ONU".
O indianoSashi Tharoor comentaria que a ONU gozava de um superávit de
credibilidade. Esse pano de fundo se refletia tanto na intensificação das atividades
autorizadas pelo Conselho de Segurança como na sucessão de encontros internacionais
temáticos promovidos pela ONU e que, após a Conferência do Rio de Janeiro sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento, abordariam os direitos humanos, em Viena, odesenvolvimento social, em Copenhague, as questões demográficas, no Cairo, a condição
da mulher, em Pequim, os problemas urbanos, em Istambul.
Mas essa autoconfiança logo sofreria abalos. Em contraste com a relativa
"simplicidade" da agressão Iraquiana contra o Kuait, as Nações Unidas se confrontariam
com dilemas particularmente complexos diante da violência associada ao ressurgimento de
rivalidadesétnicas nos Bálcãs e às sangrentas lutas intestinas em países africanos. A
articulação de uma estratégia eficaz para lidar com os conflitos na Bósnia ou nos Grandes
Lagos seria dificultada por problemas tais como os relacionados à diferenciação entre
vítima e agressor na ex-Iugoslávia, ou às hesitações do Conselho de Segurança em
caracterizar os acontecimentos em Ruanda como um caso de...
tracking img