A questao da tecnica - martin heidegger

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scientiæ zudia, São Paulo, v. 5, n. 3, p. 375-98, 2007

Martin Heidegger

A questão da técnica1
A seguir, questionaremos a técnica. O questionar constrói num caminho. Por isso é aconselhável, sobretudo, atentar para o caminho e não permanecer preso a proposições e títulos
particulares. O caminho é um caminho de pensamento. Todos os caminhos de pensamento, mais ou menos perceptíveis, passamde modo incomum pela linguagem. Questionamos a técnica e pretendemos com isso preparar uma livre relação para com ela. A relação
é livre se abrir nossa existência à essência da técnica. Caso correspondamos à
essência, estaremos aptos a experimentar o técnico em sua delimitação.
A técnica não é a mesma coisa que a essência da técnica. Quando procuramos a
essência da árvore, devemos estaratentos para perceber que o que domina toda árvore
enquanto árvore não é propriamente uma árvore, possível de ser encontrada entre outras árvores.
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Martin Heidegger

Assim, pois, a essência da técnica também não é de modo algum algo técnico.
E por isso nunca experimentaremos nossa relação para com a sua essência enquanto
somente representarmos e propagarmos o que é técnico,satisfizermo-nos com a técnica ou escaparmos dela. Por todos os lados, permaneceremos, sem liberdade, atados
à ela, mesmo que a neguemos ou a confirmemos apaixonadamente. Mas de modo mais
triste estamos entregues à técnica quando a consideramos como algo neutro; pois essa
representação, à qual hoje em dia especialmente se adora prestar homenagem, nos
torna completamente cegos perante a essência da técnica.A essência de algo vale, segundo antiga doutrina, pelo que algo é. Questionamos
a técnica quando questionamos o que ela é. Todos conhecem os dois enunciados que
respondem à nossa questão. Um diz: técnica é um meio para fins. O outro diz: técnica
é um fazer do homem. As duas determinações da técnica estão correlacionadas. Pois
estabelecer fins e para isso arranjar e empregar os meios constituium fazer humano.
O aprontamento e o emprego de instrumentos, aparelhos e máquinas, o que é propriamente aprontado e empregado por elas e as necessidades e os fins a que servem, tudo
isso pertence ao ser da técnica. O todo destas instalações é a técnica. Ela mesma é uma
instalação; expressa em latim, um instrumentum.
A concepção corrente de técnica, segundo a qual ela é um meio e um fazerhumano,
pode, por isso, ser chamada de determinação instrumental e antropológica da técnica.
Quem pretende negar que ela seja correta? É evidente que ela se adapta ao que se
tem diante dos olhos quando se fala de técnica. A determinação instrumental da técnica é mesmo tão sinistramente correta que, ademais, ainda serve para definir a técnica
moderna, da qual outrora supunha-se com razão ser algototalmente diferente e, por
isso, algo de novo diante da técnica manual mais antiga. Também a central de energia
com suas turbinas e geradores é um meio feito pelo homem para um fim estabelecido
pelo homem. Também o avião a jato e a máquina de alta frequência são meios para fins.
É claro que uma estação de radar é mais complexa do que um catavento. É claro que a
construção de uma máquina dealta frequência com engrenagens necessita de diferentes processos de trabalho da produção técnica industrial. É claro que uma serraria num
vale perdido da floresta negra é um meio primitivo em comparação com uma hidroelétrica no rio Reno.
É correto dizer: também a técnica moderna é um meio para fins. Por isso, todo
esforço para conduzir o homem a uma correta relação com a técnica é determinadopela concepção instrumental da técnica. Tudo se reduz ao lidar de modo adequado com
a técnica enquanto meio. Pretende-se, como se diz, “ter espiritualmente a técnica nas
mãos”. Pretende-se dominá-la. O querer-dominar se torna tão mais iminente quanto
mais a técnica ameaça escapar do domínio dos homens.

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scientiæ zudia, São Paulo, v. 5, n. 3, p. 375-98, 2007

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