A questão da cidadania em tropa de elite 2: como o sistema afeta a sociedade

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  • Publicado : 13 de outubro de 2011
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A QUESTÃO DA CIDADANIA EM TROPA DE ELITE 2: como o sistema afeta a sociedade

Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Comunicação e cidadania

“Engana-se quem pensa que o mundo real são os poderes visíveis, as leis escritas e a grana. O mais importante não é dito, nem escrito, nem contabilizado”.

Estamos em uma sociedade em que pessoas vivem pelo assassinato como forma de trabalho, comomodo de ganhar dinheiro e de construir poderes. Hoje, o coração das relações sociais se chama violência. Essa é a realidade que o filme Tropa de Elite 2 traz à tona, desvendando os meandros da sociedade atual, em que os homens que deveriam proteger a população estão, na verdade, à deriva do Estado. Assim, nos é mostrado como a corrupção e a desordem social se tornaram ícones presentes nasinstituições que têm como incumbência proteger o cidadão.

O “JEITINHO” DO SISTEMA

Tropa de Elite 2 expõe o funcionamento do sistema – uma máquina complexa e impessoal, que gira em torno do poder – seja ele econômico ou simbólico. O sistema, como é mostrado, corrompe até mesmo aqueles que deveriam figurar como mocinhos, pois, como é dito no filme, “nesse ‘esquema’, não há heróis”. No longa-metragem– e na vida real – a ilegalidade que deveria ser exceção, torna-se regra.
Em Tropa de Elite 2, de acordo com as teorias de Foucault, o panóptico computadorizado faz a vigilância carcerária de Bangu I, partindo do pressuposto de que ele serve para adestrar as pessoas, ou seja, “docilizar” os corpos que estão submetidos a penas judiciais, de modo que elas cumpram seus deveres perante a lei.Contudo, numa análise mais atenta, o panóptico serve não só para vigiar os presidiários, pois também é utilizado para puni-los, ao que são observados em tom prazeroso por aqueles que deveriam protegê-los.
No filme, o sistema é o modo corrupto com que as coisas são feitas, o dia-a-dia da falcatrua. Essa idéia está intrinsecamente relacionada ao famoso “jeitinho brasileiro” de resolver as coisas. Dessaforma, engana-se quem pensa que a realidade mostrada em Tropa é um artefato distante da nossa rotina. O problema é que dificilmente nos damos conta que essa situação começa com cada um de nós. No final das contas, oferecer propina para escapar de uma multa de trânsito não é tão diferente de pagar o “arrego” para poder traficar livremente. Sonegar imposto de renda, estacionar em local proibido oudestinado a deficientes e idosos e emitir nota fiscal em valor mais alto para enganar o chefe não estão tão distantes dos princípios dos crimes de colarinho branco. E os bandidos de Bangu I não são piores daqueles que os prenderam.
Nesses momentos, o cidadão brasileiro é “favorecido” pela impunidade, pois geralmente as pequenas infrações não recebem punição – é o famoso “não dá em nada”. NoBrasil não há uma preocupação com o outro, muito menos com os seus direitos; só há um egoísmo desmedido que faz com que nos preocupemos somente conosco, sem se importar com o próximo. Ou seja, “aqui, a parte é mais importante que a totalidade social e as relações entre os homens e as coisas superam as relações que se dão entre os homens” (DAMATTA, 1987. P. 73).
O problema é que colocamos aindividualidade acima da sociedade. A impunidade só incomoda se diz respeito ao outro. Ninguém pode descumprir as leis, mas se eu conseguir me beneficiar, não tem problema. Todos têm um discurso sobre o que é certo ou errado, mas na prática, a realidade é outra. É o famoso “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Assim, a mesma impunidade que tanto incomoda nos políticos, é a mesma que usamos comojustificativa para amenizar os nossos atos desonestos. É como se só eu tivesse os direitos e os outros é que tivessem os deveres. Dessa forma, pode-se dizer que o funcionamento do sistema está intimamente ligado com a questão da cidadania.
Essa “brasilidade”, que existe há muito tempo, já foi expressa na literatura brasileira. Em 1854, Manuel Antônio de Almeida publicou Memórias de um sargento...
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