A polissemia da subjetividade

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  • Publicado : 9 de novembro de 2012
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A POLISSEMIA DA SUBJETIVIDADE Vincenzo Di Matteo

Meu nome é Eu sou quem sou (Javé) Meu nome é Ninguém (Ulisses)

Pretendo, neste artigo, rastrear as várias formas de linguagem em que a subjetividade é dita; precisar os sentidos de que são portadoras; mostrar que a rica polissemia é legitimada por alguns paradoxos de difícil transposição e que a complexa rede de questões concernentes aproblemática do sujeito só pode ser tecida recorrendo a mais de um jogo de linguagem.

I. Os paradoxos da subjetividade Responder a quem nos interpela pela noção de subjetividade - ou até pela nossa identidade pessoal - é tarefa incômoda e perturbadora. Essa questão é para nós, hoje, como foi a do tempo para Agostinho. Sabemos o que é, desde que não perguntem. De uma maneira paradoxal, a subjetividadeé simultaneamente evidência e problema. Bastante tematizada, especialmente a partir da Modernidade, tornou-se um conceito sobredeterminado, abrigando uma série de questões e respostas que oscilam, conforme o caso, da subjetividade absoluta de Javé à negatividade radical do astuto Ulisses. A pergunta pelo sujeito, pelo Eu, remete, de fato, a um conjunto de dificuldades que começam pela própriaformulação da questão.

1. Consciente e inconsciente Perguntaremos pelo quem ou pelo que sou? Possuímos a evidência subjetiva, a certeza de nossa existência a ponto de poder dizer “eu sou”. Pela consciência e a racionalidade nos sentimos sujeitos e não objetos, seres de exceção, diferenciados

dos outros animais. Apesar disso, somos habitados e animados por algo anônimo e impessoal que nos forçaa conviver com a dúvida inquietante quanto à verdade do que realmente somos.

2. Singularidade e pluralidade Perguntaremos apenas pelo Eu individual, único, singular, irrepetível ou também e necessariamente pelos outros “eu” que utilizam o mesmo significante para reivindicar o estatuto de sujeito?

3. Identidade e temporalidade No primeiro caso, por qual dos “eu” perguntaremos? Pelo quefomos, acreditamos ser, somos de fato ou podemos ser? A palavra sujeito tem uma

referência? E se tem, a que se refere? A uma substância sempre idêntica a si mesma, a despeito do fluir do tempo? A um substrato de onde se originam nossos pensamentos? A um ser de linguagem que se dá - ou se pode dar - várias descrições ou versões de si mesmo ao longo do tempo? Possuímos uma natureza humana imutável ousomos a resultante dinâmica e histórica dessas várias descrições e redescrições?

4. Inclusão e exclusão No segundo caso, os outros ‘eu’ estão incluídos ou excluídos do círculo de minha subjetividade? A intersubjetividade é lógica e cronologicamente posterior à emergência da subjetividade? Pode existir um eu sem um tu que o habita e interpela? Há espaço para a alteridade numa identidadeaparentemente monolítica, centrada e fechada sobre se mesma?

5. Unidade e divisão Associamos habitualmente a subjetividade à individualidade empírica e concreta de cada um. Até a raiz etimológica de ‘ in – divíduo’ evoca a idéia de totalidade indivisa que nos separa e distingue dos outros. Mesmo assim, nos sentimos divididos, fragmentados por dentro. Somos mais multiplicidade de sujeitos do queunicidade; sujeitos divididos mais do que plenos. Somos como o átomo, indiviso por definição, mas efetivamente divisível e já dividido.

6. Interioridade e exterioridade Identificamo-nos com a unicidade de um mundo interior feito de sonhos, projetos, sentimentos, afetos, pensamentos, os quais - a despeito de sua labilidade - parecem

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se articular suficientemente a ponto de constituir uma rederelativamente consistente de crenças e desejos, uma pequena história que fornece uma certa inteligibilidade e sentido à nossa existência mergulhada no fluir do tempo. Mas, se isso for verdade, o que pensar de nossa exterioridade? Estaria cortada e excluída do núcleo duro de nossa subjetividade ou com ela se identificaria? Afinal, temos um corpo ou somos apenas o corpo que temos? Nesse caso, a...
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