A polaquinha

Páginas: 83 (20683 palavras) Publicado: 11 de novembro de 2012
DALTON TREVISAN

A POLAQUINHA
3? EDIÇÃO
EDITORA RECORD
Bobinha, de mim já não falo. Me enxugava no banheiro. Puxa, que susto.
- Está nascendo cabelo...
Um por um, tentei arrancar - doía muito. Confessei a medo para minha irmã.
- Lá embaixo.
Ela me acalmou:
- Sua tonta, é assim mesmo. Quando veio a primeira vez, bem me apavorei.
- Estou sangrando. Acho que vou morrer.
Correndoa toda hora ao banheiro.
- Estou me esvaindo... De novo, minha irmã:
- Agora você sabe. O que é moça. Daqui a um mês. Todo mês.
Me ensinou a usar toalhinha, ainda o tempo da toalhinha. Esquecida horas no banheiro, lavando, lavando. Para a mãe não ver.
O seio aflorando, o biquinho doendo - de sete novenas fiz promessa.
- Meu Deus, me acuda. Se aperto o biquinho, sai leite?
O primeironamorado, sabe o quê? Ah, o beijo único na boca. Já era pecado: duas línguas na boca. Me abraçava, eu tremia de gozo. Tanto medo: duro, grande, furando a calça. O tempo das primeiras calças justas. Ele descia reto: o começo ali no umbigo? Como adivinhar que se dobrava para cima?
Os dois de pé, na varanda, naquelas tardes fagueiras. Qual era o versinho antigo? À sombra das bananeiras, agarradinhos,debaixo dos laranjais. Pelos cantos, a sua terceira mão, na escola noturna. Oh, João.
Passamos o domingo na praia. Galinha com farofa, a descoberta do mar, o rosto em fogo do sol. De volta, no ônibus, minha mãe dormia ao lado. Começamos a nos beijar ali no escuro.
- É um jogo - eu disse. - O que faço em você, faz em mim.
Morria de vontade que me pegasse no seio. Qual seria a sensação?Primeiro um beijinho no nariz. Alisei o queixo, a penugem do braço. Abri-lhe a camisa, achei um cabelo crespo no peito. Um olho nele, outro na mãe dormindo. Se ela acorda, já pensou?
- Cuidado, menina. Eu faço o mesmo. Ele mal desconfiava, só o que eu pedia.
Fechei o olho - foi uma gritaria por dentro. Queria mais, da mãe esqueci, fiquei perdida. Ele se afastou, respirando fundo:
- Vamos parar.Não agüento mais. Com falta de ar.
Altão, magro, só osso. Bronquite asmática - não podia ficar nervoso, entrava em crise. Quase morria, máscara de oxigênio e tudo.
Um dia foi lá em casa. Fazia frio, decerto junho. Em férias, eu ainda na cama.
- Pula daí, menina.
- Ai, que gelo.
- Não seja preguiçosa.
- Deite você comigo.
Quase meio-dia. Lá embaixo a mãe se dividia entre a cozinha e otanque de roupa. Minha irmãzinha brincava na outra cama.
Daí o João deitou. Chateada, a bruxinha negra saiu, com a garota pela mão. De repente o silêncio - não, o rádio ligado, quem era mesmo que cantava? E tinha sol - uma réstia amarela no tapete xadrez. Mil pontinhos de luz bulindo ali no ar. A porta aberta, eu enxergava o corredor, meu quarto era o último - se alguém subisse a escada.
Eu nopijama de pelúcia. Ele, calça de lã e japona marrom. Começou a me abraçar e beijar. Afastou o lençol, já debaixo das cobertas - corpo a corpo. Ficou excitado. Uma bolina - então se dizia bolina - tão gostosa. Tirou para fora, era a primeira vez. Não cheguei a ver. Me fez pegar: grande, todo se mexia. Com medo, mas queria - como é que podia caber? Não, agora me lembro, o pijama azul de seda combolinha. No meio das pernas, aquele volume palpitando. Pediu que me virasse. Baixou a calça do pijama, entre as coxas - tão quente, me queimou a pele, até hoje a cicatriz. Eu queria, mas ele só encostava.
- Um dia eu faço. Se a gente casar.
- Não, amor. Depois a gente. Agora. Eu quero. Sim.
Acho que fiz muito escândalo, devo ter gemido, quem sabe gritado. O João se assustou, ficou com medo. Seminha mãe sobe a escada, já viu? Eu xinguei, decepcionada e furiosa. Ele à tarde estava com outra calça.
Daí fiquei meio louca. Fizemos mais vezes. Ali no quarto. Aquelas férias todas. O jogo enervante, no mais bom interrompido. A mãe não desconfiou, ainda com as panelas, sempre batendo roupa. Minha irmã mais velha, sim. Viu ele entrando no quarto, discutiram. Deu uma desculpa, ela não...
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