A natureza e a desordem da história

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  • Publicado : 14 de abril de 2013
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A NATUREZA E A DESORDEM DA HISTÓRIA[i]


Donald Worster



Quando volto os olhos para fora da minha janela, eu vejo uma paisagem rural do Kansas em aparente estado de estabilidade. Eventos vêm e vão, mas, o conjunto permanece estável, para os meus olhos, ano após ano. Um grupo de perus selvagens pode passar, ocasionalmente; uma tempestade de vento pode chicotear violentamente as árvores;uma nevasca pode cobrir o solo e depois o sol vir derreter a neve; porém, o céu não troca abruptamente de lugar com a terra em uma manhã, nem uma fileira de árvores avança repentinamente sobre a casa. Ainda assim, eu sei que existe mudança do lado de fora da minha janela e que a paisagem apresenta mais do que um ciclo sem fim dos mesmos eventos.
A minha casa fica no meio de antigas terrasagrícolas marginais que estão voltando a ser florestas: carvalho broca nativo e leguminosas, misturado com nogueiras, pés de laranja Osage (introduzida) e pinheiro escocês. Em comparação com as mudanças noticiadas pelo rádio, essa mudança da paisagem parece tranquilizadoramente lenta. A natureza se move em novas direções, porém, os seus ritmos de mudança são muito diferentes daqueles da política, daeconomia, ou da indústria musical. A natureza muda, eu reconheço, mas aplicar a prosaica palavra “mudança” à paisagem não me ajuda a discriminar entre os muitos tipos e ritmos de mudança que acontecem à minha volta.
Como um historiador ambiental, supõe-se que eu esteja em busca de uma estória sobre mudanças para narrar. Mudanças nas atitudes das pessoas em relação ao mundo natural têm estado entreas mais dramáticas estórias descritas pelas pesquisas realizadas em meu campo de estudos – a mudança “da montanha sombria para a montanha gloriosa”, por exemplo, ou da campanha de John Muir pelos parques nacionais para a campanha de Rachel Carson contra os organoclorados, ou da cultura norte-americana do destino manifesto para a do biorregionalismo. A história ambiental tem contado também a estóriade um ambiente biofísico em transformação, alterado pelas forças da natureza e da tecnologia trabalhando conjuntamente, em uma complicada dialética. Nós entendemos melhor do que nunca que as mudanças de atitude em relação ao mundo natural são, em alguma medida, o produto daquela complexa dialética: quando as condições materiais mudam, o que é chamado “natureza” desaparece e o seu lugar é tomadopor um novo construto.
Um efeito dessa estória de mudança é o de colocar em xeque quaisquer pressuposições ingênuas ou românticas sobre um mundo estático, dotada de uma natureza sem perturbações. Certamente, para a maioria das pessoas bem instruídas, pressuposições como essas desapareceram há muito tempo. Existe hoje uma nostalgia, amplamente difundida, por um mundo mais selvagem e menoscontrolado, embora não haja muita ingenuidade sobre uma natureza verdadeiramente estática. Ainda assim, não há um conhecimento autêntico sobre o ambiente histórico, ou um embasamento cuidadoso dos valores envolvidos nas possibilidades históricas. Muitos ambientalistas, por exemplo, estão engajados demasiadamente nas batalhas políticas atuais para pensar profundamente sobre o que eles querem salvar ousobre quais tipos de mudanças na paisagem são aceitáveis e quais não o são. Assim, um papel importante a ser desempenhado pelo historiador é o de ajudar as pessoas a tornar as questões mais claras. A natureza muda, afirmamos, ainda que nem sempre as mudanças sejam aparentes para os observadores. O que nós queremos da natureza também muda. O que queremos e o que retiramos nunca são o mesmo, seja paraos ambientalistas ou para os agentes do desenvolvimento. O que nós quisemos no passado teve consequências que ninguém esperava: surpresas, resultados imprevisíveis, muitas decepções, algumas delas trágicas. Os historiadores investigam todas essas questões e ajudam a criar um contexto intelectual para a sociedade em que eles vivem, desafiando o pensamento simplista ou as expectativas irreais....
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