A mulher na mira do discurso disciplinador

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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Santos – 29 de agosto a 2 de setembro de 2007

A MULHER NA MIRA DO DISCURSO DISCIPLINADOR DO JORNAL O 1 NORDESTE (1920 A 1940) Erotilde Honório Silva- Universidade de Fortaleza 2 Tânia Cristina Tavares de Andrade Furtado- Universidade de Fortaleza 3

RESUMOEsposa, mãe, dona-de-casa, "rainha do lar" - eis as várias facetas de um mesmo rosto, o da mulher cearense das primeiras décadas do século XX, urbana, de classe média ou alta, católica, pilar "da moral e dos bons costumes". É essa mulher recatada, praticamente reclusa à "prisão" do espaço doméstico, igualmente encarcerada nos papéis a ela atribuídos socialmente, que aparece nas páginas do jornal ONordeste como "filha de Eva". O tema central deste trabalho é o papel exercido pelo d iário, porta-voz oficioso da Arquidiocese de Fortaleza, sobre as mulheres nas décadas de 1920 a 1940. A análise centra-se no conteúdo jornalístico, nos leitores a que se dirige, em que enquadramento os situam e com que autoridade e legitimidade o discurso é apresentado. Palavras- Chave: jornalismo; gênero; opinião;catolicismo; discurso. A MULHER NA MIRA DO DISCURSO DISCIPLINADOR DO JORNAL O NORDESTE (1920 A 1940) A censura tem acompanhado os agrupamentos humanos desde a sua origem. Ela existiu na Grécia, quando Sólon resolve instituir o concurso público na Acrópole, para os dramas, e elabora critérios que exigem dos dramaturgos o respeito aos princípios morais da sociedade grega. O teatro feito à revelia, noentender do Estado, poria em risco a manutenção da ordem instituída e a permanência da visão dominante. Ainda “no século VI a. C., Zeleuco de Locros publicou uma lei, na Grécia Antiga, proibindo falar mal do governo e da cidade” (KARAM, 1997:25). Assim, onde quer que ela seja aplicada, a censura tem como objetivo fiscalizar e naturalmente reprimir opiniões contrárias ao stablishment. As idéias quedivergem do modo de pensar de uma sociedade são denominadas de crime, pecado, subversão, e as punições variam do desterro à prisão ou até à morte, como foi o caso de Sófocles, jovem filósofo, obrigado a beber cicuta por pensar e agir diferente da sociedade ateniense. Na
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Trabalho apresentado no VII Encontro dos Núcleos de Pesquisa em Comunicação – NP Jornalismo do XXX Congresso Brasileiro deCiências da Comunicação – INTERCOM. 2 Graduada em Comunicação Social, Mestre e Doutora em Sociologia pela UFC. Professora Titular da Universidade de Fortaleza – UNIFOR. Coordenadora do Curso de Jornalismo da Unifor. Coordenadora da Pesquisa Memória da Radiodifusão Cearense. 3 Graduada em Comunicação Social. Especialista em História da Cultura pela FIC. Professora Auxiliar da Universidade deFortaleza – UNIFOR. Membro do Conselho de Ética da Fenarj.
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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Santos – 29 de agosto a 2 de setembro de 2007

Idade Média, a Igreja se apercebeu de que as informações repassadas pela imprensa para um público cada vez maior abriam precedentes à dúvida e contestações,elementos perigosos para os fiéis, que poderiam afastar-se do cumprimento dos seus deveres morais e questionar os dogmas da fé católica.
“... o Concílio de Latrão, em 1512, muito atento instituiu a censura no mundo católico. Essa orientação se confirmou com o Concílio de Trento, 1545 a 1563, demonstrando que, em matéria de censura, a Igreja antecipou-se ao Estado. Mesmo quando, pela primeira vez,em Portugal o Estado ditou normas sobre os impressos, sua preocupação predominante e ostensiva foi a de salvaguardar as coisas da fé” (COSTELLA, 1970:2).

A Igreja na Idade Média pregava uma rígida concepção de mundo, imposta pelo Santo Ofício, e aqueles que porventura caíssem em desobediência ou fossem apontados como infratores eram apenados com a prisão ou a morte na fogueira da Inquisição. A...
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