A imagem urbana como poesia

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  • Publicado : 2 de setembro de 2012
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A IMAGEM URBANA COMO POESIA

A cidade como elemento matricial da poesia lírica: o flâneur e a flânerie.
Seria impossível abordar a obra de Baudelaire, e Walter Benjamin compreendeu-o bem, sem analisar os conceitos de
flâneur e de flânerie. É através do olhar do flâneur que a cidade de Paris é transfigurada poeticamente por Baudelaire,
mediante o estado de spleen, de que se falará adiante.Paris constitui-se como objeto arquitetônico privilegiado por Benjamin e a que o autor recorre constantemente, quer para
situar Baudelaire, quer para caracterizar e compreender a sua obra, do ponto de vista da sua modernidade, é a nova
cidade, após a sua reconstrução, tal como ela foi levada a cabo por Haussmann, no século.
XIX. Esta era constituída por largas avenidas e passeios amplos, quepermitiam ao parisiense uma nova relação com a
cidade e com a arquitetura. Ela foi reconstruída mediante novos traçados, através de uma reestruturação fundiária, de
construção de infraestruturas, assim como a construção de equipamentos e de espaços livres.
A esquematização da nova cidade cria uma cidade com luz, espaço e revaloriza, enquadrando, os monumentos. A maior
parte daquilo que será oalvo essencial da obra de Benjamin, as galerias, construíram-se nos quinze anos a seguir a 1822.
Associadas ao aparecimento da nova arquitetura e dos novos elementos construtivos, o ferro e o vidro, surgem os
precursores dos grandes armazéns, a que se chamam os armazéns de novidades. “Estes armazéns e, por conseguinte, as
galerias parisienses, converteram-se num polo de atração turística, como oafirma Benjamin, com base na leitura de um
guia ilustrado de Paris nessa época.”
O aparecimento das galerias coincide igualmente com o dos panoramas, os quais se constituem, como "a expressão de um
sentimento novo da vida." O citadino, através dos panoramas, tenta introduzir o campo na cidade e nos panoramas
(aspecto que será importante na análise do tema do flâneur e da flânerie) a vidaalarga-se às dimensões de uma paisagem,
desdobrando-se como tal, ante o olhar do transeunte. Ressalte-se, ainda, como acontecimento significativo e decisivo,
mesmo, o aparecimento da fotografia.
Benjamin salienta ainda um factor que será de extrema importância para definir essa época: as exposições univers ais.
Estas desempenham um papel importante naquilo a que Benjamin chamou a época dasfantasmagorias, referindo -se
deste modo ao século XIX, o qual atesta o clímax do espírito burguês: "As exposições universais são os lugares de
peregrinação da mercadoria como fétiche".
As fantasias de Grandville dão ao universo este aspecto fantasmagórico, modernizando-o, aparecendo todo ele como
mercadoria, sendo nele, como Benjamin o afirma, que os habitantes de Saturno, melancólicos e entediados,se distraem
do seu mal-estar. "O anel de Saturno torna-se uma varanda de ferro forjado onde os habitantes de Saturno vêm tomar ar
ao cair da noite."
Nesta ‘nova’ ou reconstruída cidade, e que corresponde também a um mundo em decadência, de uma cultura
derradeira e mortalmente ferida pelo fetiche da mercadoria e pelo capitalismo burguês, os seus passeios amplos
convidavam agora ao passeio,afastando o medo que tomava o transeunte parisiense, na antiga cidade, e essa actividade
(a flânerie) constituía a ocupação privilegiada do burguês ocioso (o flâneur), aquele que sustentava a convicção da
fecundidade da flânerie, de que nos fala, não apenas Benjamin, nos seus estudos sobre Baudelaire, como também o
próprio Baudelaire, na sua obra As Flores do Mal.
Pela primeira vez, e isso ocorreapenas com Baudelaire, a cidade de Paris, essa "paisagem composta de vida pura",
transforma-se em objeto matricial da poesia lírica, sendo a expressão estética disso a alegoria, enquanto modo de
apresentação dessa transfiguração fantasmagórica própria do espírito burguês: "O génio de Baudelaire, que encontra o
seu alimento na melancolia, é um génio alegórico. Pela primeira vez em Baudelaire,...
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