A historia da farmacia no brasil

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  • Publicado : 16 de abril de 2011
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A habilidade dos boticários em diagnosticar e curar doenças era pouquíssimo superior ao conhecimento que tinham do corpo humano. O detalhe dos seus processos absurdos de tratamento provocaria incredulidade, tanto maravilha pelo fato de os pacientes escaparem vivos e inteiros ... pois que aquilo que aos respectivos proprietários faltava em habilidade pareciam eles se esforçar por suprir com aexibição.

A utilização de fontes desse tipo exige a máxima cautela pelos juízos de valor negativos de que estão impregnadas. Primeiramente, é preciso considerar que Luccock era um estrangeiro cujo referencial de 'civilização' era a Europa Ocidental. Seu ofício era o de comerciante; confessa, noutra passagem de seu relato, que de medicina nada sabia; portanto, nada mais prudente do que nãoaceitar pacificamente sua avaliação sobre o fato de que os procedimentos terapêuticos dos boticários eram ou não eficazes. Ainda que fosse um especialista no assunto, seus juízos não prescindiriam de cuidado, devido aos enormes preconceitos do saber médico acadêmico em relação às práticas populares. Cumpre assinalar que a maior parte dos boticários que atuavam no Brasil — até pelo menos meados doOitocentos — assentava seus conhecimentos na experiência empírica, e não na formação acadêmica, salvo pouquíssimos graduados nas universidades européias.2
No entanto, a constatação de tamanho preconceito não significa que as observações do viajante devam ser desprezadas; elas trazem, mesmo que indiretamente, informações valiosas que permitem uma leve aproximação das relações estabelecidas entreos droguistas e seus clientes. Malgrado suas opiniões adversas sobre "os processos absurdos de tratamento" empregados pelos boticários, Luccock não consegue deixar de assinalar, estupefato, que os pacientes escapavam "vivos e inteiros", ou seja, alcançavam a cura ou, pelo menos, concluíam que a tinham alcançado. Involuntariamente esse comentário indica, portanto, que aquelas pessoas reconheciamnos boticários a capacidade de curar.
É preciso salientar que as descrições sobre as boticas e o comportamento de seus proprietários contidas nessas fontes, produzidas por estrangeiros — muitos deles versados em medicina e botânica — e pelas autoridades administrativas locais, são resultado das observações de pessoas pertencentes aos estratos culturais das elites, quase sempre avessas ao'outro' representado pelo universo da cultura popular. Esse estranhamento conduzia-os invariavelmente a enfatizar a malícia, os erros e as confusões decorrentes de uma pressuposta ignorância dos boticários e de seus aprendizes e caixeiros. É possível que, em alguns casos, a má fé, o não saber ler e escrever e o erro fizessem mesmo parte do cotidiano de muitos droguistas; quanto a isso, os testemunhossão recorrentes, ou seja, não se trata de invenção premeditada dos observadores. Mas a aceitação desse tipo de juízo de valor é uma verdadeira armadilha para o historiador que busca a compreensão do universo da cultura popular.
Um dos aspectos mais interessantes desse tipo de documentação para a pesquisa histórica é a observação das entrelinhas, ou seja, as informações involuntáriasdeixadas por esses letrados. Lidas dessa forma, é possível perceber que, não obstante o que era considerado condenável, como os equívocos no aviamento de receitas, a venda de "produtos estragados" e a substituição de determinados componentes por outros, ou mesmo que, no mais das vezes, os conhecimentos dos boticários estivessem assentados única e exclusivamente sobre as bases da experiência cotidiana —o que, do ponto de vista das autoridades públicas e dos médicos, era suficiente para os recriminar —, não raro esses droguistas, assim como os demais curandeiros, conseguiam alcançar a cura para diversos males daqueles que lhes consultavam aos balcões. Em outras palavras, havia um amplo reconhecimento popular quanto à capacidade dos boticários de sanar doenças, posto que, malgrado as restrições...
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