A escrita de si - michel foucault

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 28 (6844 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 23 de setembro de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
FOUCAULT, Michel. A escrita de si. In: O que é um autor? Lisboa : Passagens. 1992. pp .
129- 160.
A ESCRITA DE SI1
A Vita Antonii de Atanásio apresenta a notação escrita das acções e dos
pensamentos como um elemento indispensável da vida ascética: “Eis uma coisa a observar
para se ter a certeza de não pecar. Que cada um de nós note e escreva as acções e o s
movimentos da nossa alma, comoque para no-los dar [130] mutuamente a conhecer e que
estejamos cer tos que, por vergonha de sermos conhecidos, deixaremos de pecar e de trazer
no coração o que quer que seja de perverso. Pois quem consente ser visto quando peca, e
após ter pecado, não prefere mentir para ocultar a sua falta? Não fornicaríamos diante de
testemu nhas. Do mesmo modo, escrevendo os nossos pensamentos como se ostivéssemos
de comu nicar mutuamente, melhor nos defenderemos dos pensamentos impuros por
vergonha de os termos c onhecido. Que a escrita tome o lugar dos companheiros de a scese:
de tanto enrubescermos p or escrever como por sermos vistos, abstenhamo -nos de todo o
mau pensa mento. Disciplinando-nos dessa forma, pode mos reduzir o corpo à servidão e
frustrar as astúcias do inimigo”2.
A escritade si mesmo aparece aqui clara mente na sua relação de
complementaridade com a anacorese: atenua os perigos da soli dão; dá o que se viu ou
pensou a um olhar possível; o facto d e se obrigar a escrever desempenha o papel de um
companheiro, ao suscitar o respeito humano e a vergonha; podemos pois propor uma
primeira analogia: aquilo que os outros são para o asceta numa [131] comunidade, sê -lo-áo
caderno de notas pa ra o solitário. Mas, simultaneamente, uma segunda analogia se coloca,
referente à prá tica da ascese c omo trabalho não apenas sobre os a ctos mas, mais
precisamente, sobre o pensamento: o constrangimento que a pre sença alheia exerce sobre a
ordem da con duta, exercê-lo- á a escrita na ordem dos mo vimentos internos da alma; neste
sentido, ela tem um papel muitopróximo do da con fissão ao director, do qual Cassiano
dirá, na linha da espiritualidade avagriana, que deve revelar, sem e xcepção, todos os
movimentos da alma (omnes cogitationes). Por fim, a escrita dos movimentos interiores surge
também, segundo o texto de Atanásio, como uma arma do combate espiritual: uma vez que
o demónio é um poder que engana e que faz com que nos enganemos sobre nós mes mos(uma boa metade da Vita Antonii é inteiramente consagrada a tais manhas), a escrita
constitui uma prova e como que uma pedra de toque: ao trazer à luz os movimen tos do
pensamento, dissipa a sombra interior onde se tecem as tramas do inimigo. Este texto – u m
dos mais antigos que a literatura cristã nos terá deixado sobre este assunto da escrita
espiritual – está longe de esgotar todas assignificações e formas que esta mais tarde irá
adquirir. Mas podemos captar ne -[132] le bastantes traços que permitem analisar
retrospectivamente o papel da escrita na cul tura filosófica de si na época imediatamen te
"L'écriture de soi", in Corps Écrit, n.° 5 "L'auto-portrait", février 1983, pp. 3-23.
Em ante-texto, vem indicado o seguinte: "Estas páginas fazem parte de uma sé rie de estudossobre 'as artes
de si mesmo', isto é, sobre a estética da existência e o governo de si e dos outros na cultura greco --romana,
nos dois primeiros séculos do Império". A "sé rie de estudos" a que Foucult alude veio a culminar, como é
sabido, nos dois últimos volumes publicados da sua Histoire de la Sexualité: L'usage des plaisirs e Le souci de soi
(Paris, Gallimard, 1984).
1

anterior aocristianismo: a estreita ligação à camaradagem, o ponto de aplicação aos
movimentos do pensamento, o papel de prova de verdade. Estes diversos elementos
encontram -se já em Séneca, Plutarco ou Marco Aurélio, mas com valores extrema mente
diferentes e de acordo com procedi mentos de todo outros.
Nenhuma técnica, nenhuma aptidão profissional podem adquirir -se sem exercício;
também não se pode...
tracking img