A carta roubada

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  • Publicado : 3 de outubro de 2012
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A Carta Roubada

Em Paris, justamente depois de escura e tormentosa noite, no outono do ano 18..., desfrutava eu do duplo luxo da meditação e de um cachimbo feito de espuma-do-mar, em companhia de meu amigo Auguste Dupin, em sua pequena biblioteca, ou gabinete de leitura, situado no ter¬ceiro andar da Rua Dunôt, 33, Faubourg Saint-Germain. Durante uma hora, pelo menos, mantínhamos profundosilêncio; cada um de nós, aos olhos de algum observador casual, teria parecido intensa e exclusivamente ocupado com as volutas de fumaça que tornavam densa a atmosfera do aposento. Quanto a mim, no entanto, discutia mentalmente certos tópicos que haviam constituído o assunto da conversa entre nós na primeira parte da noite. Retiro-me ao caso da Rua Morgue e ao mistério que envolvia o assassínio deMarie Rogêt. Pareceu-me, pois, quase que uma coincidência, quando a porta de nosso apartamento se abriu e entrou o nosso velho conhecido, Monsieur G..., delegado de polícia de Paris.
Recebemo-lo com cordialidade, pois havia nele tanto de desprezível como de divertido, e não o víamos havia já vários anos. Tínhamos estado sentados no escuro e, a entrada do visitante, Dupin se ergueu para acender a luz,mas sentou-se de novo sem o fazer, depois que G... nos disse que nos visitava para consultar-nos, ou melhor, para pedir a opinião de meu amigo sobre alguns casos oficiais que lhe haviam causado grandes transtornos.
— Se se trata de um caso que requer reflexão — disse Dupin —, desistindo de acender a mecha, será melhor examinado no escuro.
— Esta é outra de suas estranhas idéias — comentou odelegado, que tinha o costume de 'chamar "estranhas" to¬das as coisas que estavam além de sua compreensão e que, desse modo, vivia em meio de uma legião inteira de “estranhezas”.
— Exatamente — disse Dupiu, enquanto oferecia um cachimbo ao visitante e empurrava para junto dele uma confortável poltrona.
— E qual é agora a dificuldade? — perguntei. — Espero que não seja nada que se refira aassassínios.
— Oh, não! Nada disso! Trata-se, na verdade, de um caso muito simples, e não tenha dúvida de que podemos resolvê-lo satisfatoriamente. Mas, depois, pensei que Du¬pin talvez gostaria de conhecer alguns de seus pormeno¬res, que são bastante estranhos.
— Um caso simples e estranho — comentou Dupin.
— Sim, realmente; mas por outro lado, não é nem uma coisa nem outra. O fato é que todos nósficamos muito intrigados, pois, embora tão simples, o caso escapa intei¬ramente a nossa compreensão.
— Talvez seja a sua própria simplicidade que os deso¬rienta — disse o meu amigo.
— Ora, que tolice — exclamou o delegado, rindo cor¬dialmente.
— Talvez o mistério seja um pouco simples demais — disse Dupin.
— Oh, Deus do céu! Quem já ouviu tal coisa?
— Um pouco evidente demais.
Odelegado de polícia prorrompeu em sonora gargalha¬da, divertindo-se a valer:
— Oh, Dupin, você ainda acaba por me matar de riso!
— E qual é, afinal de contas, o caso em apreço? — per¬guntei.
— Pois eu lhes direi — respondeu o delegado, refeste¬lando-se na poltrona, enquanto tirava longa e meditativa baforada do cachimbo. — Direi tudo em poucas palavras; mas, antes de começar, permitam-me recomendarque este caso exige o maior sigilo. Perderia, provavelmente, o lugar que hoje ocupo, se soubessem que eu o confiei a alguém.
— Continue — disse eu.
— Ou não diga nada — acrescentou Dupin.
— Bem. Recebi informações pessoais, de fonte muito elevada, de que certo documento da máxima importância foi roubado dos aposentos reais. Sabe-se quem foi a pessoa que o roubou. Quanto a isso, não há amenor dúvida; viram-na apoderar-se dele. Sabe-se, também, que o docu¬mento continua em poder da referida pessoa.
— Como se sabe disso? — indagou Dupin.
— É coisa que se deduz claramente — respondeu o delegado — pela natureza de tal documento e pelo fato de não terem surgido certas conseqüências que surgiriam incontinente, se o documento não estivesse ainda em poder do ladrão, isto é, se já...
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