A bolsa e a vida

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 12 (2779 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 1 de dezembro de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
A Bolsa e a Vida - Jacques Le Goff
1. Entre o dinheiro e o inferno – a usura e o usurário A Europa Ocidental, no auge da Idade Média – séculos XII e ao XIX – foi palco de uma mistura explosiva entre a economia e a religião, entre o dinheiro e a salvação. Era a usura que, segundo o dicionário Aurélio trata-se do juro de capital ou de um contrato de empréstimo em que o devedor se obriga aopagamento de juros ou também, trás a idéia do lucro exagerado, da mesquinhez. É nesta sociedade cristã que figura o mesquinho e avarento sugador de dinheiro, encarnado no judeu – detestado e ao mesmo tempo necessário. A usura torna-se um dos grandes problemas do século XIII, pois o desenvolvimento da economia monetária ameaça os velhos valores cristãos. Era preciso então lutar a fim de se legitimar umlucro lícito e diferenciá-lo da usura ilícita. Como então uma religião que opõe Deus e o dinheiro justificar a riqueza? Para responder a esta pergunta é preciso buscar nos documentos e textos não oficiais. O eclesiástico e o laico se interessam pela usura, porém a prática religiosa, pelos usurários. Dois tipos de documentos são necessários para se encontrar pistas – são as sumas ou manuais deconfessores e os penitenciais; e também os exempla. Os primeiros, partindo de uma mudança nas escolas teológicas, a confissão torna-se, além de obrigatória (IV Concílio de Latrão - 1215), individual e privada. É uma busca em detectar a gravidade do pecado pela intenção do pecador e assim, pelo exame de consciência e pela busca do arrependimento sentenciar uma penitência. E o usurário nesta nova justiçapenitencial? Diante desta nova situação muitos confessores hesitantes quanto às penitencias a serem demandadas necessitavam de guias. Assim, teólogos e canonistas escrevem sumas e manuais. Já o usurário aparece como protagonista no segundo tipo de documento, os exempla. Trata-se de uma pequena história inserida em um sermão ou discurso com fins de instrução e ensinamento de uma lição. Deve-selembrar que na Idade Média o sermão era o grande veículo de comunicação e grande norteador das mentalidades e da vida prática. Curta, cheia de retórica e efeitos de narrativa, a historinha dramatiza e convence:
“Um outro usurário riquíssimo, começando a entrar em agonia final, muito se afligiu, sofreu, implorou para sua alma que não o deixasse porque iria recompensá-la amplamente, e lhe prometia ouroe prata e as delícias deste mundo se ela se comprometesse a permanecer com ele. Mas que não lhe pedisse dinheiro nem mesmo uma esmola para os pobres, mínima que fosse. Vendo, afinal, que não conseguiria retê-la, encolerizou-se e, indignado, disse-lhe: ‘Preparei-te uma boa residência, com abundância de riquezas, mas tu tornaste tão louca e tão miserável que não queres repousar nesta boaresidência. Que se dane! Mando-te para todos os demônios do inferno’. Pouco depois ele entregou seu espírito às mãos dos demônios e foi enterrado no inferno.” – Sermão “ad status” nº 58 de Jacques de Vitry, 1240.

Esse é o destino do usurário. Assim, a usura é pecado. Por quê? Eis o grande embate do usurário entre a riqueza e o paraíso – para que ele se salve será preciso abandonar sua bolsa. Comoencontrar um modo de guardar a bolsa e a vida? Ele encontrará um modo, ou encontrarão para ele? 2. A bolsa: a usura Jacques de Vitry, em seu sermão modelo 59, evoca a usura em múltiplas faces, como uma hidra de muitas cabeças. A usura designa muitas práticas e complica assim estabelecer uma fronteira entre o lícito e o ilícito nas operações envolvendo a cobrança de juros. Entretanto existe a usura em sique consiste a cobrança de juros em operações onde não deveria haver juros. Os homens da Idade Média, quando confrontados com um fenômeno, buscavam na Bíblia o modelo correspondente, pois era nela que se espelhavam a explicação para lidar com as questões do mundo. Em matéria de usura, nas Escrituras quase não há contradição ou brechas quanto à sua condenação:
“Se você emprestar dinheiro a um...
tracking img