A arte de ouvir

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 20 (4908 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 11 de dezembro de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
O século da administração
Escrito por:
* Walter Kiechel

Se quiser apontar o lugar e a data em que os primeiros clarões do Século da Administração surgiram no horizonte, não seria má ideia sugerir Chicago, maio de 1886. Ali, na recém-fundada American Society of Mechanical Engineers, Henry R. Towne, um dos fundadores da fabricante de fechaduras Yale Lock Manufacturing Company, proferiu umdiscurso intitulado “The Engineer as an Economist” — “O Engenheiro como Economista”.
Towne sustentou que, embora houvesse bons engenheiros e bons empresários, raramente os dois coincidiam em uma só pessoa. E afirmou que “a administração do trabalho fabril se convertera em uma questão de tal importância que talvez já fosse justificável classificá-la como uma das artes modernas”.
O discurso deTowne anunciava uma nova realidade em pelo menos três sentidos. Chamemos o primeiro de conscientização: a administração deveria ser encarada como um conjunto de práticas que podiam ser estudadas e aperfeiçoadas. Devia ter raízes na economia, o que para a turma ali reunida — uma plateia de engenheiros — significava atingir o máximo de eficiência com recursos disponíveis. Em décadas futuras, taismestres do universo material, de Frederick Winslow Taylor a Michael Porter, Tom Peters e Michael Hammer, teriam impacto descomunal sobre a história da administração.
Towne estava pegando um bonde. No século que se seguiu, a administração, como a conhecemos, ganharia forma e viria moldar o mundo no qual trabalhamos. Foram três eras entre a década de 1880 e hoje. Na primeira, que vai até a 2a GuerraMundial, o ideal de exatidão científica deu alento às ambições de uma nova — e autoproclamada — elite administrativa. A segunda, de fins da década de 1940 até cerca de 1980, foi a era dos sentimentos elevados, do apogeu de autoconfiança e do apoio público generalizado ao “managerialism”. A terceira era, ainda em curso, é marcada por uma espécie de recuo — pela especialização, pela subordinação àsforças do mercado, pelo declínio de ambições morais. Mas é, também, uma era de triunfo global que produziu consenso sobre certas ideias cruciais, produtividade cada vez maior, o avanço mundial do ensino da administração e a escalada geral das expectativas sobre a forma como o trabalhador deve ser tratado.
Desde o começo, americanos e representantes de algum outro povo anglófono dominaram a históriada administração, no sentido de que foram suas as ideias que mais se disseminaram. Houve exceções: em 1908, Henri Fayol, engenheiro que dirigira uma das maiores companhias de mineração da França, formulou uma lista de princípios de gestão que incluía a cadeia de comando hierárquica, a separação de funções e a ênfase no planejamento e no orçamento. Ainda assim, sua grande obra — AdministraçãoIndustrial e Geral, de 1916 — levou décadas para ser traduzida e ter alguma repercussão fora da França. Embora a globalização prometa uma diversificação de fontes de ideias de gestão, o grosso da história até aqui se passa nos Estados Unidos (veja o boxe “Adeus ao provincianismo global”).

A era da “administração científica”
Progressistas se arrogavam um saber especial calcado na ciência e apreendidoem processos. Frederick Taylor, que sustentava que “a melhor administração é uma ciência de fato, assentada em leis, regras e princípios claramente definidos”, obviamente se considerava um deles (fãs como Louis Brandeis e Ida Tarbell concordavam). Sua meta declarada era garantir “máxima prosperidade para o empregador, conjugada com máxima prosperidade para cada trabalhador”, mediante “uma divisãomuito mais equânime da responsabilidade entre administração e trabalhadores”. Traduzindo (para que o leitor não superestime o respeito de Taylor pela potencial contribuição do trabalhador): o trabalhador deveria seguir um processo analisado e projetado pela administração para garantir a máxima eficiência — “o melhor caminho” —, o que permitiria que fizesse tanto quanto humanamente possível...
tracking img