A alegria de ensinar

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 59 (14619 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 2 de outubro de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
RUBEM ALVES

A ALEGRIA DE ENSINAR

ARS POETICA EDITORA LTDA

1994

_______________________________

Rubem Alves – A Alegria de Ensinar

2

Ensinar
é um exercício
de imortalidade.
De alguma forma
continuamos a viver
naqueles cujos olhos
aprenderam a ver o mundo
pela magia da nossa palavra.
O professor, assim, não morre
jamais...
Rubem Alves_______________________________

Rubem Alves – A Alegria de Ensinar

3

Índice
Ensinar a alegria ......................................................... 5
Escola e sofrimento ................................................... 8
A lei de Charlie Brown .............................................. 13
Boca de forno ............................................................. 17
O sapo......................................................................... 21
Sobre vacas e moedores ............................................ 25
Eu, Leonardo .............................................................. 29
Lagartas e borboletas ................................................. 34
Bolinhas de gude ........................................................ 38
Um corpo com asas................................................... 43
Tudo o que é pesado flutua no ar ........................... 47
As receitas ................................................................... 52
Ensinar o que não se sabe ........................................ 56
O carrinho .................................................................. 60

_______________________________

Rubem Alves – A Alegria deEnsinar

4

Ensinar a alegria
Muito se tem falado sobre o sofrimento dos professores.
Eu, que ando sempre na direção oposta, e acredito que a
verdade se encontra no avesso das coisas, quero falar sobre o
contrário: a alegria de ser professor, pois o sofrimento de se ser
um professor é semelhante ao sofrimento das dores de parto: a
mãe o aceita e logo dele se esquece, pela alegria de dar àluz um
filho.
Reli, faz poucos dias, o livro de Hermann Hesse, O Jogo
das Contas de Vidro. Bem ao final, à guisa de conclusão e resumo
da estória, está este poeminha de Rückert:
Nossos dias são preciosos
mas com alegria os vemos passando
se no seu lugar encontramos
uma coisa mais preciosa crescendo:
uma planta rara e exótica,
deleite de um coração jardineiro,
uma criança que estamosensinando,
um livrinho que estamos escrevendo.
Este poema fala de uma estranha alegria, a alegria que se
tem diante da coisa triste que é ver os preciosos dias
passando... A alegria está no jardim que se planta, na criança
que se ensina, no livrinho que se escreve. Senti que eu mesmo
poderia ter escrito essas palavras, pois sou jardineiro, sou
_______________________________

Rubem Alves –A Alegria de Ensinar

5

professor e escrevo livrinhos. Imagino que o poeta jamais
pensaria em se aposentar. Pois quem deseja se aposentar
daquilo que lhe traz alegria? Da alegria não se aposenta...
Algumas páginas antes o herói da estória havia declarado que,
ao final de sua longa caminhada pelas coisas mais altas do
espírito, dentre as quais se destacava a familiaridade com a
sublimebeleza da música e da literatura, descobria que ensinar
era algo que lhe dava prazer igual, e que o prazer era tanto
maior quanto mais jovens e mais livres das deformações da
deseducação fossem os estudantes.
Ao ler o texto de Hesse tive a impressão de que ele estava
simplesmente repetindo um tema que se encontra em
Nietzsche. O que é bem provável. Fui procurar e encontrei o
lugar onde ofilósofo (escrevo esta palavra com um pedido de
perdão aos filósofos acadêmicos, que nunca o considerariam
como tal, porque ele é poeta demais, “tolo” demais...) diz que
“a felicidade mais alta é a felicidade da razão, que encontra sua
expressão suprema na obra do artista. Pois que coisa mais
deliciosa haverá que tornar sensível a beleza? Mas “esta
felicidade suprema,” ele acrescenta, “é...
tracking img