Vigilância e dominação

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  • Publicado : 31 de março de 2013
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ando, uma pessoa caída na calçada, um possível assalto. Estas são cenas captadas pelo sistema de vigilância da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo. Flagrantes que as câmeras espalhadas pela cidade gravam 24 horas por dia.

Ruas, aeroportos, lojas, bancos, escolas, casas. Do satélite à ultrassonografia, temos nossas vidas vigiadas desde o útero por olhos sem rosto. O dia-a-dia registradocomo num imenso Big Brother. E o que tudo isso tem a ver com o poder? Vigilância e disciplina. Este é o assunto deste domingo.

"Meu trabalho é monitorar o trânsito da Avenida Paulista, ver tudo o que acontece: um carro quebrado, um acidente, um motoqueiro que cai. Faço isso há sete anos", conta o técnico de trânsito Luis Márcio Azevedo, da Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo(CET-SP).

Ele sabe que sua profissão pode estar com os dias contados. Hoje, a CET-SP já tem 256 câmeras nos principais pontos da cidade. E a tendência é aumentar a vigilância. Mas como a vigilância pode se tornar uma forma de poder?

Depois de muitos séculos punindo através do sofrimento físico, da humilhação, a tecnologia do poder foi se aperfeiçoando, e a sociedade percebeu que era mais viávelvigiar do que punir. O objetivo desta nova forma de exercer o poder era, através de uma vigilância constante, impedir que o delito fosse cometido.

A idéia que deu origem a essa espécie de "poder invisível" nasceu como um projeto de prisão no fim do século 18: o panóptico.

A intenção era "ver sem ser visto". No projeto do panóptico, as celas dos presos estavam dispostas ao redor de uma torrecentral, onde ficava o guarda encarregado da vigilância. Uma única pessoa podia vigiar todas as celas, sem ser notada. Os prisioneiros nunca tinham a certeza de que havia alguém olhando do outro lado e, assim, evitavam cometer qualquer erro.

Pensando no Big Brother Brasil, é como se os participantes fossem os prisioneiros e você o guarda na torre: o olho invisível que tudo vê.

Esta máquina devigiar, que nasceu para ser uma prisão, acabou servindo de modelo para a construção de manicômios, hospitais e escolas. Mais do que isso: a idéia por trás do panóptico – "ver sem ser visto" – se transformou em uma nova forma de exercer o poder.

Com o tempo, aquele que está submetido à vigilância constante termina vigiando a si mesmo. "Eu saio de casa preocupada com o que as pessoas vãopensar, como vai ser o meu comportamento diante de uma reunião, qual a roupa. Me sinto comandada", diz a secretária Sheila Bacelar.

É como se existisse uma câmera interna capaz de vigiar por dentro nossas ações. "Por exemplo, eu sou capaz de sair com uma roupa e levar outra na bolsa. Porque se eu chegar num local e uma pessoa falar que não agradou, não ficou legal ou tem alguma coisa que não estácombinando, eu corro para o banheiro e troco", conta Sheila.

E, então, com essa consciência cada vez mais autocrítica, o homem torna-se seu próprio carrasco.

"Não adianta só ser bom. Tem que ser o melhor. Como você vai saber se tem status, se é bonito ou não? Olhando para os outros", diz a estudante Ana Clara Cruz.

Esta é a forma de tortura moderna. Mas a constante vigilância que vivemosnão é tudo. Mais do que vigiar, era preciso construir um sistema de poder capaz de moldar um homem passivo, útil, disciplinado. O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) chamou este processo de "poder disciplinar".

O poder disciplinar é, antes de tudo, uma forma de organizar o espaço físico, e utiliza uma técnica que busca separar, dividir, para melhor controlar.

O plano da cidade deBrasília, por exemplo, não previa apenas prédios, construções maravilhosas.

"Brasília é um símbolo, uma tentativa de construir uma cidade produtiva, controlada do ponto de vista do espaço e do tempo, igual a uma linha de montagem", avalia o professor Cristóvão Duarte, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU-UFRJ). "Tem uma parte da cidade que é só...
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