Vida e morte - o mundo como vontade e representação

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 21 (5123 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 1 de março de 2012
Ler documento completo
Amostra do texto
VIDA E MORTE

A vontade, considerada puramente em si mesma, é inconsciente; é uma simples
tendência, cega e irresistível, a qual encontramos tanto na natureza do reino inorgânico e do
vegetal e nas suas leis, como também na parte vegetativa da nossa vida: mas pelo acréscimo
do mundo da representação que se desenvolveu pelo seu uso, ela adquire a consciência do seu
querer e do objeto do seuquerer; reconhece que aquilo que quer não é outra coisa senão o
mundo e a vida como são; dizemos, por isso, que o mundo visível é a sua imagem ou a sua
objetividade; e como o que a vontade quer é sempre a vida, pois que a vida para a
representação é a manifestação da vontade, resulta que é indiferente e constitui puro
pleonasmo se em vez de dizer simplesmente “a vontade”, dissermos “avontade de viver”.
Sendo a vontade a coisa em si, a substância, a essência do mundo; e a vida, o mundo
visível, o fenômeno, não sendo mais que o espelho da vontade, segue -se daí que a vida
acompanhará a vontade com a mesma inseparabilidade com que a sombra acompanha o
corpo: onde houver vontade, haverá também vida, mundo. A vida está, portanto, assegurada
ao querer-viver, e por quanto istosubsista em nós, não devemos preocupar-nos pela nossa
existência nem mesmo diante da morte. Bem vemos o indivíduo nascer e morrer, mas o
indivíduo é apenas um fenômeno; não existe senão pelo conhecimento submetido ao
princípio de razão, que é o princípio de individuação: nesta ordem de idéias, certamente o
indivíduo recebe a vida como um dom: oriundo do nada e despojado do seu dom pela morte,
aonada retoma. Mas para quem, como nós, contempla a vida do ponto de vista filosófico, isto
é, das Idéias, nem a vontade ou a coisa em si de todos os fenômenos, nem o sujeito dos
conhecimentos, espectador dos fenômenos, são de qualquer forma tocados pelo nascimento
ou pela morte. Nascer e morrer são coisas que pertencem ao fenômeno da vontade, e
aparecem nas cria turas individuais, manifestandofugitivamente e no tempo, aquilo que em si
não conhece tempo e deve exata mente manifestar-se sob esta forma com o fim de poder
objetivar a sua verdadeira natureza. Pela mesma razão, nascimento e morte pertencem à vida
e equilibram-se mutuamente como condições recíprocas, ou melhor, como pólos do
fenômeno total. A mitologia hindu, entre todas a mais sábia, exprime este pensamento, dando
poratributo a Çiva que simboliza a destruição ou a morte (como Brama, o deus ínfimo e
pecador da Trimurti, simboliza a procriação, o nascimento e Vishnu simboliza a
conservação), o colar dos mortos, juntamente com o Lingam, símbolo da geração, o qual
conseguintemente aqui aparece para compensar a destruição; o que significa que nascimento
e morte são pela sua essência correlativos que seneutrali zam e se compensam a seu turno.
Pelas mesmas razões, Gregos e Romanos cobriam seus preciosos sarcófagos, tais como
podem ser vistos no dia de hoje, com ornamentos que representavam festas, danças,
casamentos, caças, combates de feras e bacanais e colocavam deste modo em cena os fatos
mais animados da vida expressos não unicamente sob a forma de divertimentos, mas também
por meio de gruposvoluptuosos e até mesmo de cópulas de sátiros com cabras. Tinha isto o
fim evidente de subtrair ao indivíduo pranteado o pensamento da morte, para levá-lo à vida
imortal da natureza, acentuada com energia, mostrando assim, embora estivessem muito
longe de possuir a consciência abstrata deste fato, que toda a natureza não é mais que o
fenômeno e a realização da vontade de viver. A forma de talfenômeno é o tempo, o espaço e
a causalidade, donde a individuação, que tem por conseqüência que o indivíduo deve nascer e
morrer; mas a vontade de viver de que o indivíduo não constitui por assim dizer, mais que um
exemplar ou uma parcela singular de manifestação, não é perturbada pela morte do ser
individual, tanto quanto não o é o conjunto da natureza. Pois que não é pelo indivíduo, mas...
tracking img