Vermelho, verde e amarelo - tudo era uma vez

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vermelho, verde e amarelo:
Tudo era uma vez

AdéliA BezeRRA de Meneses

o

de fada têm um valor extraordinário no desenvolvimento infantil, sendo, via de regra, o primeiro contato da criança com o mundo
ficcional formalizado numa narrativa. ouvir um conto de fada constitui
o momento inaugural de um processo de “organização da experiência” (Candido, 1995), que a literatura propicia. Émuito mais do que os pedagogos chamam de “desenvolver a imaginação”: sabemos, sobretudo na esteira de Bruno
Bettelheim (1980), o quanto os contos de fada tratam de questões fundamentais
com que se defronta a criança no seu desenvolvimento. efetivamente, essas narrativas atuam, podendo pontuar – ou restaurar – um significado para situações
da vida de cada um, algumas absolutamente desconcertantes,sobretudo nos
momentos de inflexão no curso da existência.
Às vezes surpreendemo-nos um tanto chocados com o grau de crueldade
embutido em algumas histórias de fada, e queremos “poupar” os nossos filhos
de um confronto com esse sofrimento, com a maldade de algumas personagens
que habitam o mundo do maravilhoso. Mas isso seria impedir que a criança se
defronte com situações simbólicas –repito: simbólicas – que ela no mundo real
vivencia, em que o Bem e o Mal se travejam, e com as quais os contos de fada a
ajudam a lidar. a criança por meio dos contos de fada vê, verbalizadas – pois é
no nível da palavra que as coisas se passam –, situações de sofrimento, de medo,
de perigo, situações que exigem dela um esforço de superação. a personagem
com que ela se identifica atravessaobstáculos e passa a um outro patamar de
existência.
Com efeito, os contos de fada – uma espécie de repositório da sabedoria
popular transmitido de pais a filhos, ou melhor, de mães a filhos, pela voz – foram se constituindo num patrimônio precioso de cultura, veiculando experiência humana. tratam de questões fundamentais da criança no seu processo de
desenvolvimento – que não se faz sem crises.
aimportância dessas narrativas é sublinhada por ninguém menos que Platão, que em A República reconhece o papel que as mães e amas exercem de
“moldar” (o termo é este: modelar) as almas das crianças, com seus contos e
narrativas, com o “mythos”.
um estudo comparativo dos contos de fada Chapeuzinho Vermelho (1697),
de Perrault, Fita Verde no Cabelo (1964), de Guimarães Rosa e Chapeuzinho
Amarelo(1979), de Chico Buarque, atestará que os autores brasileiros, estas contos

estudos avançados

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belecendo um inevitável diálogo com o texto do século XvII, efetivarão uma
significativa mudança de eixo. não seria o caso, agora, de se retomarem a fundo
as análises e interpretações – de resto já bem conhecidas – feitas sobre essas narrativas, sobretudo a de Perrault,mas de, numa abordagem comparativa das três,
mostrar as visões diferentes que elas carreiam, e apontar como, de diferentes
maneiras, elas são “veículos de experiência humana”.
Pois, embora as três narrativas tratem da questão do desenvolvimento infantil, dos percalços e sofrimentos da criança para crescer, e também da questão
do enfrentamento do Medo (medo infantil, mas também medo da criançaque
habita cada um de nós), o enfoque de cada uma é bem singularizado, como se
verá a seguir.

Chapeuzinho Vermelho
vamos começar pelo primeiro, cronologicamente, que é o conto de Perrault, Chapeuzinho Vermelho. Perrault viveu de 1628 a 1703; a publicação da
sua coletânea de contos é de 1697, quando receberam forma escrita relatos de
tradição oral – histórias anônimas que, num determinadomomento, foram postas por escrito por um autor. alguns anos mais tarde, Grimm, em 1812, publica
também um conto Chapeuzinho Vermelho, numa versão em que a avó e a menina
ao final são salvas pelo caçador. É verdade que no nosso imaginário, na nossa
memória de crianças crescidas que provavelmente ouviram na infância essas narrativas, fixou-se a lembrança mesclada das duas versões, de Perrault e...
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