Turimo favela

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Freire-Medeiros, Bianca. A construção da favela carioca como destino turístico. Rio de Janeiro: CPDOC, 2006.

A Construção da Favela Carioca como Destino Turístico∗ Bianca Freire-Medeiros
Pesquisadora-bolsista do programa de estágio de pós-doutorado do CPDOC

I. Introdução Esta comunicação examina o processo de elaboração e venda da favela carioca como destino turístico. Aqui, não é minhaintenção focalizar as experiências narradas pelos turistas ou as opiniões dos favelados sobre o turismo em seus espaços de moradia, mas investigar o papel desempenhado por empresários, ONGs, lideranças comunitárias e agentes públicos neste processo. Ao enfatizar as dinâmicas de recepção e consumo presentes na prática turística, muitos pesquisadores acabam por negligenciar a responsabilidade dosagentes promotores na conformação de desejos e fantasias que moldam o produto turístico enquanto tal. Na intenção de preencher essa lacuna, a metodologia desta pesquisa envolveu entrevistas em profundidade com informantes qualificados, i.e. com os donos das agências que organizam os passeios na Rocinha, bem como com os agentes promotores do turismo no Morro da Babilônia, no Morro dos Prazeres e noMorro da Providência. No caso da Rocinha, a partir de um questionário semi-estruturado, buscava-se resgatar o processo de entrada das agências na favela, o tipo de serviço prestado, sua relação com os moradores e com o tráfico de drogas, o nível de comprometimento com projetos sociais e suas estratégias de diferenciação em um mercado cada vez mais disputado. Os sites de cada agência foram examinadosem seus aspectos discursivo e imagético e foram realizadas, ainda, observações de campo que envolviam a participação nos tours.



Palestra proferida no CPDOC em 22/03/2006.

Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC / FGV – www.cpdoc.fgv.br

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Meu propósito, ao longo de toda pesquisa, foi distanciar- me das referências teóricas que explicam oturismo em termos de opostos binários: afinal, não podemos celebrá- lo como um caminho seguro rumo ao desenvolvimento econômico, nem tampouco apontálo como principal responsável pelo processo de aculturação e de depreciação dos recursos naturais. Em tempos de globalização, o que é certo é que a indústria do turismo é responsável por criar maneiras de transformar, circular e consumir localidades,criando uma cultura material e uma “economia de sensações” que lhe é específica. O turismo precisa, portanto, ser entendido como um processo social capaz de engendrar formas de sociabilidade que produzem efeitos ainda por conhecer. Como os promotores turísticos convencem potenciais clientes a visitar um lugar associado à pobreza – e em grande medida à violência – como a favela carioca? Que mecanismosdiscursivos e práticos precisam ser acionados para viabilizá- la como atração turística? Os promotores capitalizam o sentimento de solidariedade e as preocupações humanísticas de seus clientes? Ou tiram vantagem do desejo inconfesso e algo voyerista de ver como os pobres são? Como as atividades turísticas nas favelas se relacionam com produções midiáticas e outras práticas de contato transnacionais?Minha hipótese é que, para responder estas questões, é preciso inserir o processo de construção da favela como destino turístico em um duplo contexto: na conjuntura de expansão dos chamados reality tours mundo afora; e no fenômeno de circulação e consumo, em nível global, da favela como trademark, como um signo a que estão associados significados ambivalentes que a colocam, a um só tempo, comoterritório violento e local de autenticidades preservadas. Esta comunicação está dividida em cinco partes. Na que se segue, ofereço uma breve descrição dos chamados reality tours para que possamos compreender como certas localidades são retoricamente reinventadas em seus predicados estéticos, educativos e

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