Transcrição do conto a mulher que chegava às seis - gabriel garcía márquez

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  • Publicado : 11 de novembro de 2012
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A Mulher que Chegava às Seis

A porta de vaivém se abriu. A essa hora não havia ninguém no restaurante do José. Acabara de bater as seis horas e o homem sabia que só às seis horas e meia começariam a chegar os fregueses habituais. Tão conservadora e regular era sua clientela que não acabara o relógio de dar a sexta badalada quando uma mulher entrou, como todos os dias a essa hora, e sentou semdizer nada no alto banco giratório. Trazia um cigarro sem acender, apertado entre os lábios.
- Alô, rainha – disse José quando a viu sentar-se. Logo caminhou para o outro extremo do balcão, limpando com um pano seco a superfícia envidraçada. Sempre que alguém entrava no restaurante, José fazia o mesmo. Até com a mulher com quem chegara a ter um grau de quase intimidade, o gordo e rubicundo donodo restaurante representava a diária comédia do homem diligente. Falou do outro extremo do balcão.
- Que é que você quer hoje? - disse.
- Antes de tudo quero ensinar você a ser cavalheiro – disse a mulher. Estava sentada no fim da fileira de bancos giratórios, com os cotovelos no balcão, com o cigarro apagado nos lábios. Quando falou, apertou a boca para que José perebesse o cigarro semacender.
- Não notei – disse José.
- Você ainda não viu nada – disse a mulher.
O homem deixou o pano no balcão, caminhou para os armários escuros e cheirando a alcatrão e a madeira empoeirada, e voltou logo com os fósforos. A mulher se inclinou para alcançar o fogo que ardia entre as mãos rústicas e pelujdas do homem; José viu o abundante cabelo da mulher, besuntado de vaselina pastosa e barata. Viu oombro descoberto por cima do corpinho floreado. Viu o nasciento do seio crepuscular, quando a mulher levantou a cabeça, já com o cigarro aceso entre os lábios.
- Você está linda hoje, Rainha – disse José.
- Deixe de tolices – disse a mulher. –Não pense que isso vai me servir para pagar você.
- Não quis dizer isso, rainha – disse José. – Aposto que hoje o almoço fez mal a você.
A mulhertragou a primeira baforada de fumaça densa, cruzou os braços, ainda com os cotovelos apoiados no balcão, e ficou olhando para a rua, através do amplo vidro do restaurante. Tinha uma expresão melancólica. D uma melancolia enfastiada e vulgar.
- Vou preparar para você um bom bife – disse José.
- Ainda não tenho dinheiro – disse a mulher.
- Há três meses que não tem dinheiro e sempre preparo para vocêalgo bom – disse José.
- Hoje é diferente – disse a mulher, sombriamente, ainda olhando para a rua.
- Todos os dias são iguais – disse José. – Todos os dias o relógio bate as seis horas, então você entra e diz que está com uma fome de cachorro e então eu preparo para você algo bom. A única diferença é essa, que hoje você não diz que está com uma fome de cachorro, mas que o dia é diferente.
- Eé verdade – disse a mulher. – Voltou-se para olhar o homem que estava do outro lado do balcão, examinando a geladeira. Ficou olhando-o durante dois, três segundos. Depois, olhou o relógio, em cima do armário. Era seis horas e 3 minutos. – É verdade, José. Hoje é diferente – disse. Expeliu a fumaça e continuou falando com monossílabos, apaixonadamente. – Hoje não vim às seis, por isso édiferente, José.
O homem olhou o relógio.
- Corto meu braço se esse relógio se atrasar um minuto – disse.
- Não é isso, José. É que hoje não vim às seis – disse a mulher.
- Vim às quinze para as seis.
- Acaba de dar as seis, rainha – disse José. – quando você entrou eram seis em ponto.
- Eu estou aqui há um quarto de hora – disse a mulher.
José se dirigiu para onde ela estava. Aproximou da mulhersua enorme cara congestionada, enquanto levantava com o indicador uma de suas pálpebras.
- Sopre aqui – disse.
A mulher jogou sua cabeça para trás. Estava séria, enfastiada, suave; embelezada por uma nuvem de tristeza e cansaço.
- Deixe de tolices, José. Você sabe que há mais de seis meses não bebo.
- Isso você vai dizer a outro – disse -, a mim é que não. Aposto que, no mínimo, vocês tomaram...
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