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JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI

DIALÉTICA X ANALÍTICA*

volume 12 número 2 2008

José Arthur Gianno i USP

I A ANPOF dá o mote, a mim cabe glosá-lo. Vou defender a tese de que existe uma correspondência ligando, de um lado, as estruturas de uma lógica e a ontologia que as pensa, de outro, a maneira pela qual o conhecimento é repartido entre analítica e dialética. É somente nesse contexto que“dialética” e “analítica” ganham sentido filosófico. Mas no âmbito dessa minha apresentação somente poderei aludir a alguns textos, indicando a direção que poderiam ser lidos para que minha tese possa ser compreendida. Indicarei apenas como a cristalização da lógica formal em Aristóteles se dá no contexto de sua metafísica, mas nada mais farei do que ler as primeiras linhas do tratado das Categorias.Indicarei como Kant retoma essa questão e como Hegel relê esse texto de Aristóteles. Finalmente tentarei mos-

(*)Este texto foi apresentado na ANPOF de 2008 numa mesa redonda cujo tema era “Filosofia dialética e/ou Filosofia analítica”. ANALYTICA, Rio de Janeiro, vol 12 nº 2, 2008, p. 35-45

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trar como a nova lógica formal elaborada a partirde Frege subverte inteiramente a questão. Aqui não me interessam as opiniões dos filósofos, o acerto delas, mas unicamente as torções que sofrem quando os filósofos quando refletem sobre problemas já pensados por outros autores. II Devemos a Aristóteles a oposição entre dialética e analítica. Na diairesis platônica o interlocutor escolhe uma das duas espécies postas num gênero superior. Se o objeto aser definido é posto, por exemplo, como colorido, o interlocutor deve dizer se ele é branco ou preto, conforme a alternativa proposta pelo condutor do diálogo. Pouco importa se a alternativa se dá entre contrários ou contraditórios, desde que no caminhar da diairesis o interlocutor seja persuadido de que objeto individualizado vem a ser definido por tais propriedades. É como se o indivíduo fossecercado por círculos concêntricos. Essa indiferença entre contradição e contrariedade está ligada ao modo pelo qual Platão, tendo no horizonte sua teoria da participação das Formas, interpreta a proposição. Ele a pensa composta por um nome e um verbo, este se reporta a uma ação, aquele, ao sujeito da ação (Sof.262). A proposição está assim se reportando sempre a uma atividade, que diz um modo de ser,quando ela é afirmativa, e um modo de não-ser, quando negativa. Mas o não-ser é alteridade, um ir além para um outro indefinido, de sorte que a proposição negativa sempre se reporta, por assim dizer, a uma “aspiração” que o sujeito traz consigo de participar de outro embora não consiga estacionar nele. As objeções de Aristóteles à teoria da participação são conhecidas. Lembremos rapidamente umadelas: a diáresis nunca chega ao que é, à ousia, à essência, na sua individualidade primordial. Se esta cruz participa da Forma-cruz é porque possui alguma semelhança com ela. A coisa existente no mundo sempre encontra sua identidade na medida em que, de algum modo, copia a Forma paradigmática. Mas se a constelação Cruzeiro do Sul possui esse nome na medida em que vemos no céu quatro estrelasformando aproximadamente uma cruz, mais uma estrela

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acompanhante, não é por isso que uma cruz de madeira e a cruz vista no céu possuem a mesma essência. Para romper essa projeção entre a coisa e seu modelo, Aristóteles passa então a distinguir coisas, algos, que possuem o mesmo nome sem possuir a mesma essência, a mesma definição, isto é, homônimas, e coisas que têm nomeem comum e a mesma definição, isto é, sinônimas A sinonímia acontece quando digo que o homem e o boi são animais. Aristóteles é levado então a distinguir o dizer algo de um sujeito, de uma base (hypokeimenon) e estar nesse sujeito. “ Entendo por ‘estar num sujeito’ o que é em algo (ti) não como parte, e não pode existir separadamente daquilo que nele está” (Cat. 1a, 24/25). É possível então...
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