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  • Publicado : 1 de julho de 2012
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CORPOS E/EM CONFLITO

- performances narrativas da fronteira entre Argentina, Brasil e Uruguai
Falemos de fronteiras.
Fronteiras disciplinares, teatro, antropologia. Fronteiras geopolíticas, Argentina, Brasil, Uruguai. Fronteiras narrativas, lobisomens, bruxas, "luz mala", enterros de dinheiro. Fronteiras corporais, mulheres, homens, jovens, idosos... contadores de histórias.São estas fronteiras e os sujeitos que as integram, criando-as e transcendendo-as, o foco principal deste trabalho, onde pretendo demonstrar como, através de análises feitas a partir de dados etnográficos sobre performances de narradores tradicionais, venho procurando realizar este contato.
Definamos fronteiras.
A noção de fronteira que permeará este trabalho relaciona-se com a de "front", quetomo emprestado de Leenhardt (2001), que o define como local privilegiado de conflitos e tensões. Acompanhada da carga simbólica (bélica) de "front", fronteira torna-se assim um conceito-chave não apenas para pensar a zona em questão mas também o tema das performances narrativas. Num outro sentido, é interessante pensar que a fronteira é também o local de encontro com o outro, encontro que poderevelar uma parte de nossa própria humanidade. De conflito passamos então à comunhão.
Devido à sua formação cultural semelhante e o seu contato freqüente, os habitantes desta região, que engloba uma faixa de terra envolvendo parte dos três países, possuem, em muitos sentidos, uma memória comum . Unidos, por um lado, pelas características geográficas da região - o pampa - e por uma formação histórica eorganização social similares, a população da região, por outro lado, esteve muitas vezes lutando em frentes opostas, em conflitos que tiveram como conseqüência o estabelecimento das fronteiras políticas entre os três países.
A noção de conflito utilizada ao longo deste trabalho acompanha a perspectiva de Briggs (1996: 13), para quem este não é simplesmente uma divergência dos processos sociaisnormais, mas, ao contrário, envolve formas complexas que participam na própria constituição da vida social. No Pampa, pensados em uma escala mais abrangente, os antigos conflitos armados, que envolveram episódios dramáticos, podem ser vistos atualmente substituídos por conflitos econômicos, especialmente travados por instâncias ligadas ao poder político-econômico dos três países. Mas numaperspectiva mais local, os conflitos tomam uma outra dimensão, talvez muito mais significativa na vida social da região, deixando de opor países e suas economias para oporem patrões e empregados, trabalhadores urbanos e rurais, jovens e idosos, homens e mulheres, tradição e modernidade, humanos e animais, natureza e sobrenatureza... Ou seja, a identidade, entre os pequenos grupos sociais,intrafronteiriços, encontra-se também, e sobretudo, na própria convivência, manipulação, interpretação e "ficcionalização" (Palleiro, 1992) de suas experiências situadas de conflito.
A questão da identidade é abordada aqui através de uma expressão simbólica comum à toda a região, os "causos" ou "cuentos" em performance, e mais especificamente através dos corpos e vozes dos sujeitos que os transmitem, pois da mesmaforma que contadores de histórias brasileiros (gaúchos), cuenteros e pajadores argentinos e uruguaios (gauchos) também representam um importante papel como catalizadores, transmissores e recriadores desta memória e desta relação identitária comum. A identidade aparece, então, também relacionada ao papel desempenhado pelo corpo, estabelecido como o lugar próprio da expressão da personalidadesocial e da individualidade (Rodrigues, 1975).
Para compreender estas questões na etnografia realizada, primeiramente busco identificar de que maneira o intercâmbio cultural e social característico desta região de fronteira se manifesta no corpo e na vocalização dos contadores: sua movimentação está centralizada no tronco, da cintura para cima, sendo que eles em geral permanecem sentados ou de...
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