Trabalho e aventura

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  • Publicado : 24 de abril de 2011
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Trabalho e Aventura
* Portugal e a colonização das terras tropicais
Nenhum outro povo do Velho Mundo achou-se tão bem armado para se aventurar à exploração regular e intensa das terras próximas à linha equinocial, onde os homens depressa degeneram, segundo o conceito generalizado na era quinhentista.
Essa exploração dos trópicos não se processou, em verdade, por um empreendimento metódico eracional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e certo abandono.
* Dois princípios que regulam diversamente as atividades dos homens
Nas formas de vida coletiva podem assinalar-se dois princípios que se combatem e regulam diversamente as atividades dos homens. Esses dois princípios encarnam-senos tipos do aventureiro e do trabalhador. Para uns, oobjetivo final, a mira de todo esforço, o ponto de chegada, assume relevância tão capital, que chega a dispensar, por secundários, quase supérfluos, todos os processos intermediários. Seu ideal será colher o fruto em plantar a árvore.
Esse tipo humano ignora as fronteiras. No mundo tudo se apresenta a ele em generosa amplitude e, onde quer que seja erija um obstáculo a seus propósitos ambiciosos, sabetransformar esse obstáculo em trampolim. Vive dos espaços ilimitados, dos projetos vastos, dos horizontes distantes.
O trabalhador, ao contrário, é aquele que enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar. O esforço lento, pouco compensador e persistente, que, no entanto, mede todas as possibilidades de esperdício e sabe tirar o máximo proveito do insignificante,tem sentidobem nítido para ele. Seu campo visual é naturalmente restrito. A parte maior do que o todo.
Entre esses dois tipos não há, em verdade, tanto uma oposição absoluta como uma incompreensão radical. Ambos participam, em maior ou menor grau, de múltiplas combinações e é claro que, em estado puro, nem o aventureiro, nem o trabalhador possuem existência real fora do mundo das ideias. Mas também não hádúvida que os dois conceitos nos ajudam a situar e a melhor ordenar nosso conhecimento dos homens e dos conjuntos sociais. E é precisamente nessa extensão super-individual que eles assumem importância inestimável para o estudo da formação e evolução das sociedades.
Na obra da conquista e colonização dos novos mundos coube ao “trabalhador”, no sentido aqui compreendido, papel muito limitado, quasenulo.
A ânsia de prosperidade sem custo, de títulos honoríficos, de posições e riquezas fáceis, tão notoriamente característica da gente de nossa terra, não é bem uma das manifestações mais cruas do espírito de aventura? Não raro nossa capacidade de ação esgota-se nessa procura incessante, sem que a neutralize uma violência vinda de fora, uma reação mais poderosa; é um esforço que se desencaminhaantes mesmo de encontrar resistência, que se aniquila no auge da força e que se compromete sem motivo patente.
E, no entanto, o gosto da aventura, responsável por todas essas fraquezas, teve influência decisiva (não a única decisiva,é preciso, porém, dizer-se) em nossa vida nacional. Favorecendo a mobilidade social, estimulou os homens, além disso, a enfrentar com denodo as asperezas ouresistências da natureza e criou-lhes as condições adequadas a tal empresa.
Nesse ponto, precisamente, os portugueses e seus descendentes imediatos foram inexcedíveis. Procurando recriar aqui o meio de sua origem, fizeram-no com uma facilidade que ainda não encontrou, talvez, segundo exemplo na história. Onde lhes faltasse o pão de trigo, aprendiam a comer o da terra. Aos índios tomaram ainda instrumentos decaça e pesca, embarcações de casca ou tronco escavado, que singravam os rios e águas do litoral, o modo de cultivar a terra ateando primeiramente fogo aos matos.
* Plasticidade social dos portugueses
* Carência de orgulho racial
Quando lamentamos que a lavoura, no Brasil, tenha permanecido tão longamente aferrada a concepções rotineiras, sem progressos técnicos que elevassem o nível...
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