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Rosa Maria Bueno Fischer

Mídia, máquinas de imagens e práticas pedagógicas
Rosa Maria Bueno Fischer
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Educação e Programa de Pós-Graduação em Educação

Três cenas Cena 1 – Meio urbano, cenário doméstico, atores de classe média. A menina de 12 anos mal chega em casa após um dia na escola (particular), e não consegue sequer trocar deroupa: liga o computador e, olhos em brilho, conecta-se ao MSN. Em segundos, estará em contato online com cinco, dez, vinte amigos, a maioria dos quais colegas com quem esteve há menos de uma hora, ao vivo. A mesma menina aguarda ansiosa o horário da novela das oito: desde seu quarto, escuta a música-tema de abertura do folhetim eletrônico, coloca-se temporariamente off-line no MSN, vai até a sala,senta-se ao sofá, janta sob protestos, está “vidrada” na tela. A seu lado, inseparável, o celular: é possível que algum torpedo chegue a qualquer momento, ou que alguém muito esperado ligue. O ouvido, de longe, continua atento aos sinais emitidos pelas entradas de possíveis novos amigos no MSN. Hiperconectada, isso não a impede de conversar com a mãe, responder a perguntas sobre novidades na escola,planejar o próximo fim de semana com o pai, a festa na noite de sexta-feira, o almoço com a madri-

nha no domingo, ou combinar pelo telefone convencional a pesquisa escolar na Internet, na casa de uma amiga. Cena 2 – Meio rural, próximo da capital gaúcha, ambiente externo, assentamento de agricultores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), atores jovens de camadas populares. Ogrupo de três adolescentes (duas meninas e um menino) acaba de sair da escola de ensino médio, uma escola pública estadual: todos portam seus celulares, não se cansam de consultar se há nova mensagem, se alguém ligou durante o tempo “silencioso” do aparelho, quando estavam em aula. Andam rápido, está quase na hora da novela adolescente Malhação. Como estará a personagem gordinha, o galã que todasdesejam, a menina que vai fazer um teste para modelo? E a personagem de 16 anos que ficou grávida? O mundo deles está e ao mesmo tempo não está lá. Identificação e crítica mesclam-se. Os que têm computador em casa também se apressam, pois há possibilidade de saberem de novidades no Orkut: quantas pessoas terão acessado sua página? Não seria melhor mudar algum dado do profile? Quem sabe acrescentaruma foto ao

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Revista Brasileira de Educação v. 12

n. 35 maio/ago. 2007

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álbum? E, claro, imediatamente clicar no scrapbook e ver as desejadas mensagens que lhe foram enviadas? Ou então entrar na página de um amigo e mandar a ele ou a ela aquilo que “só” pode ser dito ali, naquele privilegiado espaço digital? É precisoapressar-se. Mas há tempo também, muito tempo, para rir, chorar, comentar um desacerto com a professora, uma discussão com o pai ou a mãe, a pesquisa que precisam entregar depois de amanhã, ou então procurar a menina ou o menino desejados, nem que seja só com o olhar, na rua ao lado. Ideários do MST misturam-se sem distinção a sonhos de consumo e práticas com tecnologias digitais. O tempo é curto, o tempo éimenso, cabe tudo nele para esses jovens. Cena 3 – Meio urbano, interior de uma sala de professores de escola municipal na periferia de Porto Alegre. Uma das professoras, recém-doutora, comenta o primeiro mês como docente. Será relativamente bem-remunerada, em comparação a professores da rede estadual. Mas não sabe se continuará na profissão. O que aprendeu na graduação, mestrado e doutoradoparece não fazer sentido ali, naquela escola, com aqueles alunos. Algo ela sabe que não vai bem. Alguma coisa lhe traz profunda angústia. Os colegas ouvemna. E concordam: as crianças andam cada vez mais agitadas, algumas até muito violentas, agressivas com os companheiros de sala e com os professores. Elas não param de inserir durante as aulas comentários aprendidos na televisão, em geral irônicos,...
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