Terapia familiar

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Análise Psicológica (2007), 2 (XXV): 241-255

O Modelo de Falloon para intervenção familiar na esquizofrenia: Fundamentação e aspectos técnicos

MANUEL GONÇALVES-PEREIRA (*) MIGUEL XAVIER (*) GRÁINNE FADDEN (**)

INTRODUÇÃO

As origens do modelo cognitivo-comportamental de terapia familiar remontam à década de sessenta do século XX, com abordagens a casais em crise (sem história de doençamental grave em qualquer dos membros do casal) e a famílias de crianças apresentando problemas de conduta. Nestes casos, a ênfase era colocada não tanto na patologia, mas sobretudo em défices ou excessos comportamentais a modificar, incidindo nos componentes quantificáveis, quer internos (pensamentos) quer externos (acções). Mais recentemente, os terapeutas têm vindo a concentrar-se nosignificado do comportamento e nas cognições a ele subjacentes.

(*) Departamento de Saúde Mental, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa. E-mail: gpereira.sm@fcm.unl.pt (*) Departamento de Saúde Mental, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa. (**) Birmingham and Solihull Mental Health Trust, Universidade de Birmingham.

Ainda que integrando princípios sistémicos,a escola comportamental de terapia familiar traçou percursos distintos dos modelos centrados no insight, transgeracionais, estruturais, estratégicos ou outros. Apesar desta diferenciação, a escola comportamental absorveu vários aspectos daqueles modelos, da mesma forma que também muitos terapeutas sistémicos incluem na sua prática clínica técnicas de inspiração cognitivo-comportamental(directivas, com sugestão activa e trabalhos de casa) (Glick et al., 2000). Em 1984, Ian Falloon e colaboradores publicaram os resultados globais de uma intervenção em famílias de pessoas com diagnóstico de esquizofrenia, a que chamaram “Terapia Familiar Comportamental” (TFC). Esta designação significava que a base de trabalho era a família em conjunto, implicando a inclusão nas sessões de todos oselementos disponíveis, nomeadamente da pessoa com doença psicótica (Falloon, Boyd & McGill, 1984). Paralelamente, estavam em desenvolvimento outras experiências com trabalho psicoeducativo em grupos de famílias de doentes psicóticos (Liberman, 1970). O encontro de Falloon e Liberman, em Londres, 241

na década de 70, foi decisivo na génese da TFC. A conjugação da experiência de ambos levou à realizaçãode estudos sistemáticos de terapia multifamiliar (envolvendo algum trabalho com cada família, isoladamente), em combinação com treino sistemático de aptidões sociais para os doentes: tanto em Inglaterra (Falloon et al., 1981) como nos EUA (Liberman et al., 1981), os resultados foram muito promissores. Na sequência temporal deste processo, e na tentativa de isolar os componentes mais eficientes daintervenção familiar, Ian Falloon burilou um modelo de intervenção que se viria a centrar no desenvolvimento da capacidade de resolução de problemas de cada família em separado (não em grupos multifamiliares). As intervenções para famílias de doentes psicóticos (ou com outros tipos de perturbação mental grave) inspiradas na técnica de Falloon serão designadas, neste artigo, por TFC, expressãoconsagrada na literatura, e não por intervenções psicoeducativas unifamiliares de inspiração comportamental, como seria talvez mais correcto. Integram-se, sem dúvida, nos critérios gerais para psicoeducação, de acordo com a declaração de consenso promovida em 1998 sob os auspícios da World Schizophrenia Fellowship (McFarlane et al., 2003) tanto quanto aos objectivos como quanto aos princípios(Fadden, 1998). Recentemente, tem sido também adoptada a expressão inglesa Behavioral Family Management para designar o conjunto de intervenções familiares (incluindo não apenas a TFC) que adoptam objectivos talhados para cada família e um enfoque mais psicoeducativo que “terapêutico” (Liberman & Liberman, 2003). O abandono do termo “terapia”, como em “Terapia Familiar Comportamental”, prende-se,...
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