Teoria simplificada da posse

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“Todo crime é político”

Em agosto de 2003, a revista Caros Amigos publicou sua entrevista de capa com o advogado Nilo Batista, que reiterou então enfaticamente a necessidade de se rejeitar as soluções repressivas para o drama social em que estamos mergulhados – uma forma de “pagar o preço do Estado democrático de direito” –, na contramão das campanhas que alardeiam o combate à impunidade.“Impunidade é um verbete do léxico da direita, porque no nosso país sobra punição”, afirmou ele, argumentando que a punição desempenha o papel político de criminalizar os pobres e todas as suas estratégias de sobrevivência, estigmatizando-os através da temível figura do traficante exposta diariamente como inimigo público em horários nobres. E foi a mídia e sua relação de solidariedade com o sistemapenal a questão que mereceu os comentários mais veementes nesse encontro.
Reproduzimos aqui os principais trechos dessa longa conversa de mais de quatro horas, incluindo partes que, por uma questão de espaço, tiveram de ficar de fora da edição da revista, mas que são muito significativas para a compreensão de particularidades da questão criminal no Rio de Janeiro.

Entrevistadores: Hugo R.C. Souza,Luciana Gondim, Maurício Caleiro, Paula Grassini, Rodolfo Torres e Sylvia Moretzsohn.

Sylvia Moretzsohn – Você teve essa experiência nos dois governos Brizola, eu queria que você falasse sobre essa idéia que prevalece até hoje, de que foi com o Brizola que todo esse descalabro começou, os traficantes mandando nos morros, e a idéia de que nunca tivemos política de segurança, que o Estado estáabandonado há 20 anos...
Nilo Batista – Isso foi uma peça publicitária, um professor não tem o direito de falar isso. Alguém que minimamente tenha um compromisso com as séries estatísticas, se alguém falar isso na universidade, é meio uma piada. Num ambiente acadêmico minimamente sério isso não existe.
Sylvia Moretzsohn – Mas há muitos professores que falam isso, justamente...
Nilo Batista – Sãoprofessores que falam isso do lugar político deles, que estão encaixados na direita, de alguma forma. Seja na direitona mesmo, no Rio de Janeiro do César Maia, com seu projeto de “ou prisão ou vala”, ou outros que estão num projeto político conservador, embora não saibam que o projeto é conservador. Em primeiro lugar, Brizola está quilômetros na frente desses professores na percepção dasopressões criminais. Devo dizer que eu, de alguma forma, aprendi muito com ele. A sensibilidade dele nesse particular é completamente pioneira, aqui entre nós, e eu tive o privilégio de poder acompanhar de perto essas intuições dele com relação ao conteúdo político das opressões penais. Muito PhD não se toca disso. E esse é um discurso que unifica. Nós podemos ter dois discursos econômicos, que também emalgum momento a gente pensa que é um só, não é? Podemos ter dois discursos econômicos, ou três, ou quatro, mas discurso político criminal parece que só tem um. Haja vista a identidade dessas propostas nos discursos eleitorais, eu por exemplo não conseguia ver a diferença entre o discurso do Genoíno e o discurso do Tuma, e isso me parece muito mais grave do que qualquer espécie de, como se dizia,que o Brizola e eu éramos cúmplices do tráfico porque nós realmente tentávamos impedir o conjunto de brutalidades que essa política norte-americana de drogas alavanca na aterrorização da pobreza urbana na periferia do vídeo-capital financeiro, pra homenagear o Gilberto Felisberto Vasconcellos.
Sylvia Moretzsohn – Um pouco no sentido do que a Vera escreveu sobre a “estrela da morte”, quer dizer, éonde todos os discursos políticos se encontram, na questão criminal...
Nilo Batista – Pois é, isso é chocante, são as mesmas propostas. Que parece ser uma coisa inocente, e eu não tenho dúvida de que existe muita gente que embarca nisso...
Vera Malaguti Batista – Mas também é por oportunismo eleitoral, falta de coragem de passar do limite do discurso do senso comum, isso não pode ser dito,...
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