Teoria das artes

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Apostila para alunos do curso de filosofia contemporânea da UFRN – Prof. Claudio F. Costa

TEORIAS DA ARTE
Sê bem vinda, ó vida! Eu vou de encontro, pela milionésima vez, à realidade da experiência, a fim de moldar, na forja da minha alma, a consciência ainda incriada de minha raça. James Joyce

A pergunta fundamental em filosofia da arte é: qual a natureza da obra de arte? Teorias da artebuscam respondê-la. Uma objeção freqüente à pretensão de construir tais teorias é que a arte é um fenômeno demasiado diversificado para que possa ser encontrada uma essência comum a todas as suas manifestações, o que equivale a dizer que não podemos encontrar condições suficientes para a sua identificação, ou seja, condições que uma vez presentes nos garantam que estamos diante de obras de arte. Oque há de comum, afinal, entre o teto da capela Sixtina e a Marilyn de Andy Warhol? Muito pouco. Essa objeção toma uma forma articulada na sugestão, feita por Morris Weitz, de que o conceito de arte não pode ser definido em termos de condições suficientes por se tratar de um conceito possuidor do que Wittgenstein chamava de semelhanças de família, tal como os conceitos de jogo, número ereligião(1). Tais conceitos parecem possuir uma essência comum a todas as suas aplicações, mas na realidade apresentam apenas semelhanças parciais entre uma e outra aplicação, nada possuindo de relevante que seja comum a todas as aplicações. As similaridades entre as aplicações são, em uma metáfora de Wittgenstein, como as cerdas trançadas de um mesmo fio, que apenas parecem percorrer toda a sua extensão(2).Essa objeção pode bem ter o seu ponto. Mas é importante notar que o conceito de semelhanças de família, se interpretado como exigindo apenas que os objetos de aplicação do conceito possuam semelhanças quaisquer entre si, é incoerente. Qualquer coisa é, em algum aspecto, semelhante a 1

qualquer outra coisa. Como notou Nigel Warburton, o edifício do Empire State e um alfinete são semelhantes notocante ao fato de serem feitos de material inorgânico e de serem pontudos(3). Se as semelhanças não forem de alguma maneira limitadas, conceitos com semelhanças de família tornam-se ilimitadamente aplicáveis, perdendo a sua função classificatória e deixando de fazer qualquer sentido. Um meio de delimitar as semelhanças sem fazer apelo a uma essência comum consiste em estabelecer um paradigma,que consiste um uma série de propriedades para a aplicação do conceito, e no estabelecimento de uma regra exigindo uma compartilhamento mínimo entre as propriedades de um objeto e as propriedades descritas no paradigma. Dessa forma, dois objetos podem não possuir nenhuma propriedade comum e mesmo assim compartilharem suficientemente das propriedades descritas no paradigma para cairem sob o mesmoconceito. Esse poderia ser o caso, por exemplo, do conceito de religião(4). Contudo, se nós considerarmos as coisas dessa maneira, as teorias da arte voltam a fazer sentido, se não como teorias que visam estabelecer condições suficientes ou essências comuns, ao menos como teorias que devem estabelecer o paradigma daquilo que chamamos de arte, além das margens de similaridade entre o objeto e oparadigma a serem requeridas para que ele possa ser chamado de obra de arte. O importante passa a ser que essas teorias sejam capazes de iluminar dimensões importantes da obra de arte, as quais constituem o paradigma, além das relações sistemáticas eventualmente existentes entre elas. Mas há uma outra maneira (não necessariamente conflitante com a que acabo de expor) de se abordar a questão. Um conceitocom aplicações muito diversificadas pode ser muitas vezes analizado como um conceito formado por subconceitos variadamente assemelhados entre si. Sendo assim, mesmo que um certo conceito geral não possua uma essência comum a suas aplicações, isso não significa que os subconceitos que o constituem, se considerados individualmente, não possuam essências comuns a suas aplicações ainda mais...
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