Teoria da imagem mai

Disponível somente no TrabalhosFeitos
  • Páginas : 8 (1778 palavras )
  • Download(s) : 0
  • Publicado : 9 de fevereiro de 2011
Ler documento completo
Amostra do texto
Autor: Victor Flores
Artigo: Teorias da imagem

Os modos pelos quais a imagem se reporta ao mundo e os tipos de relações que com ele estabelece propiciaram que ao longo dos tempos se traçassem diferentes teorias da imagem, ou seja, diferentes conhecimentos, saberes e crenças que contribuíram para a compreensão tanto da imagem como dos planos culturais em que foi sendo acolhida. Estas teoriasfundaram-se desde cedo em torno de debates sobre a natureza da imagem, as suas condições de uso e o seu valor cultural. Embora ancestrais, eles vieram fixar expectativas que ainda hoje são endereçadas às imagens, nomeadamente no que respeita ao seu contributo para a Verdade, para o Bem e para a Educação.
O pensamento grego começou por descrever o funcionamento da imagem através do conceitode imitação (mimesis), ou seja, como um acto produtivo que procedia por relações de semelhança com um mundo ideal ou com o mundo natural. É precisamente nesta distinção dos tipos de semelhança ou de imitação (dos objectos reais ou das ideias) que se erguem os primeiros critérios de valorização e de hierarquização das imagens. Platão, no livro X da República, reconhece que as boas imagens são todasaquelas que se dedicam à imitação das ideias e não do mundo natural (ou sensível). Por esta razão é compreensível que um dos primeiros planos pelos quais a imagem se fez pensar tenha sido no quadro de uma Metafísica. Desde cedo o pensamento grego descreveu o funcionamento da imagem como a face visível de uma realidade invisível, o desdobramento e a manifestação visível de uma Ideia. O termo eikonsurge precisamente para designar a imagem na sua relação com as ideias, as formas, os arquétipos, ou seja, com todo um mundo supra-sensível cuja essência é da ordem do invisível. São as imagens que tornam esse mundo (ideal) «contemplável», «visível», na medida em que participam da sua substância (são-lhe consubstanciais).
A tradição judaico-cristã veio prolongar e intensificar esta economiametafísica da imagem pela sua necessidade de conservar o sagrado no domínio do invisível, reservando à sua cultura dos ícones o privilégio de tornarem visíveis os rostos e as refulgências do sagrado sem que a mão humana ali tivesse intervido (acheropoietos). Mas estas tradições também temeram desde cedo que este quadro metafísico não retivesse todas as imagens e a sua compulsão mimética. Nofundo, tratou-se do reconhecimento de um determinado poder das imagens, designadamente destas se poderem furtar a uma relação com as ideias e de se instituírem através de relações com as coisas, instaurando presenças sem modelo no «mundo das puras essências imutáveis» (Platão) ou, posteriormente, no mundo figural reconhecido e autorizado pelos dogmas da Igreja. O simulacro (eidolon), essa imagem quecria a ilusão de poder criar a própria realidade, e que Platão afirma contentar os sofistas, os poetas e os pintores, tem o seu equivalente na tradição judaico-cristã no conceito de «ídolo» (a representação de uma divindade, susceptível de receber um culto por se confundir com ela). A mesma indisposição para com estas imagens vem repetir-se, agora no plano religioso: apela-se para que não sefabriquem ídolos, ou seja, outros deuses ou «falsas transcendências», ao mesmo tempo que uma teologia da imagem começa a reconhecer a necessidade de intervir na recaracterização ontológica da imagem, designadamente no que respeitava às expectativas de contiguidade das imagens sagradas.
No império bizantino dos séculos VII e VIII um fervilhar de éditos e decretos veio contrapôr a posição maistradicional e iconoclasta da Igreja (a que mais acreditava nessa consubstancialidade entre a imagem e o que esta figurava, argumentando que a dimensão material e física da imagem viria, no caso particular das imagens sagradas, corromper a dimensão do invisível) à posição mais moderada e iconófila (a que defende não ser idolatria a veneração dos ícones de Cristo, da Virgem, dos anjos e dos santos,...
tracking img