Serviço social

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                Fundamentos éticos do Serviço Social                               
Maria Lúcia Silva Barroco  Professora de Ética Profissional – PUC/SP 

 

Fundamentos éticos do Serviço Social 
  Introdução     Há  cerca  de  duas  décadas  ocorre  com  a  ética  um  fenômeno  inédito:  sua  discussão, em geral restrita ao campo filosófico, amplia‐se para diferentes áreas do saber,  incidindo  em  amplos  setores  da  vida  social.  Ao  invadir  o  espaço  da  cotidianidade, ocupando‐se em geral de prescrições moralistas, apresenta‐se como  alternativa social conservadora, incentivando o senso comum a preservar os seus  preconceitos,  o  que  tende  a  se  renovar  no  contexto  de  violência  estrutural  da  sociedade brasileira 1 .     Parte  significativa  das  produções éticas  contemporâneas  se  afasta,  progressivamente,  da  crítica,  da  objetividade,  da  universalidade,  isto  é,  dos  referenciais éticos da modernidade e de autores clássicos como Aristóteles, Kant e  Hegel.  Ao  favorecer  a  ideologia  dominante  e  o  irracionalismo,  contribuem  para  obscurecer os nexos da realidade; ao naturalizar o presente, negam a possibilidade  de  intervenção do  homem  na  história:  fundamento  de  uma  ética  orientada  pela  práxis.     A  moralização  da  vida  social,  comportamento  pautado  em  preconceitos,  ganha  legitimidade  ao  ser  incorporada  socialmente  como  estratégia  de  enfrentamento das expressões da “questão social”. Ao mesmo tempo, a constante  presença  de  discursos  e  produções  teóricas  no  campo  da  ética  não significa  –  necessariamente  –  o  debate  entre  diferentes  teorias  e  projetos,  nem  tampouco  a  explicitação de seus fundamentos.     Quando  abstraídos  de  seu  conteúdo  histórico  e  de  sua  fundação  teórica,  os  discursos se confundem. É o que ocorre quando diferentes sujeitos políticos falam  em  nome  da  “justiça”  e  “dos  direitos  humanos”,  embora,  em  muitos  casos,  para 1 Sobre a questão da violência, ver especialmente Sales (2007).  

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justificar  a  sua  violação.  A  reprodução  abstrata  das  categorias  éticas  também  propicia  a  sua  idealização,  transformando‐as  em  “entidades”  com  poder  de  “autoexplicação”.     Ideologicamente, a burguesia é idealista “com a mesma naturalidade com que respira”, já dizia Simone de Beauvoir: “separado de todo o contato com a matéria,  por  causa  de  seu  trabalho  e  pelo  seu  gênero  de  vida,  protegido  contra  a  necessidade, o burguês ignora as resistências do mundo real [...]. Tudo o estimula a  desenvolver sistematicamente essa tendência em que se reflete, de imediato, a sua  situação: fundamentalmente interessado em negar a luta de classes, ele não pode  desmenti‐la  senão  recusando  em  bloco  a realidade.  Por  isso,  tende  a  substituí‐la  por  Idéias  cuja  compreensão  e  extensão  delimita,  arbitrariamente,  segundo  seus  interesses (BEAUVOIR, 1972, p. 6)”.     A sociabilidade burguesa funda sua ética no princípio liberal segundo o qual a  liberdade  de  cada  indivíduo  é  o  limite  para  a  liberdade  do  outro.  Dadas  as  condições  objetivas  favorecedoras  da  reprodução  do  modo de  vida  mercantil,  valorizador  da  posse  material  e  subjetiva  de  objetos  de  consumo,  cria‐se,  na  prática,  uma  ética  individualista,  orientada  pela  ideia  de  que  o  “outro”  é  um  “estorvo” à liberdade, entendida como a incessante busca de vantagens e acúmulo  de bens cuja duração é tão efêmera quanto às relações que lhes dão sustentação.      O  repetitivo  discurso moralizante  presente  na  mídia,  em  certos  meios  de  comunicação  de  massa,  ao  incentivar  direta  ou  indiretamente  o  ethos  liberal  burguês,  a  violência,  a  abstração,  o  moralismo  e  o  conservadorismo,  fortalece  a  descrença  na  política,  em  sua  forma  democrática,  reforçando  apelos  à  ordem,  a  medidas repressivas, a soluções morais para a crise social.   ...
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