Sem viagem

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FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO
III SEMINÁRIO DE PESQUISA DA FESPSP

SEM VIAGEM - Da capacidade de transcendência do RAP ao compromisso de seus envolvidos.
Fernanda Agostinho Gama
nanda_agostinho@hotmail.com
Orientador: Adalton José Marques
adalton.marques@gmail.com
Resumo
Os processos sociohistóricos produzem sujeitos que expressam em seus corpos o habitusabsorvidos e produzidos nos grupos aos quais pertencem. Estas expressões carregam, muito além de definições academicizadas, e estão substancializadas pelas afinidades e oposições historicamente construídas na complexidade da cidade. Na ampla quantidade de grupos que compõe a cidade de São Paulo, um grupo recebe nas periferias a concessão de representação, são estes os envolvidos no RAP. Esta concessão sedá, pelo reconhecimento da trajetória destes sujeitos, que representam o compromisso do RAP. Enquanto sujeitos que escolhem o envolvimento com o RAP como forma de relação com mundo, passam então, a refletir e se posicionar estrategicamente em suas atitudes e falas. O RAP enquanto uma prática enunciativa se corporifica ao delinear as ações cotidianas de seus enunciadores, exigindo inclusive acobrança e a denuncia dos que traem a periferia. Esta exigência produz um facilitar ou dificultar no acesso ao grupo e quem podem ser considerados verdadeiros ou o inimigo. A definição de quem é ou não um verdadeiro se baseia em produções históricas complexas dadas ao longo de nossa história, e sua flexibilidade é possível através da concessão de signos de consideração cedidos a partir da demonstraçãode uma conduta coerente entre fala e ações, possibilitando permeação no grupo. Neste trabalho, busquei demonstrar a estreita relação entre a produção histórica desigual e a permeação em um grupo que se reconhece e é reconhecido politicamente e se relaciona com os demais grupos a partir deste reconhecimento.

Palavras-Chave: RAP, Transcendência, Habitus.


Eu não faço música, faço protesto!1Os corpos dados nas relações na cidade não carregam definições econômicas ou sociológicas impressas em sua epiderme, mas exprimem lugares e fronteiras estabelecidas pelos processos sociohistóricos. O sujeito carrega expresso em seu corpo não só a própria trajetória, mas o habitus dos grupos a que pertence, sendo assim atravessados pelas empatias e desconfianças destinados a este grupo. Estehabitus, enquanto sistema de disposições é ao mesmo tempo construção concebida pelos sujeitos, e uma tendência que determina os corpos (BOURDIEU, 1983). Sendo assim, os rechaços e as pertenças em um grupo passam pelo atrito e a acomodação deste habitus.
Em um país produtor de histórias tão desiguais para os grupos que o compõe, as relações dadas em menor escala, como na cidade de São Paulo, se dão emum alto nível de complexidade sendo que estes atritos e acomodações resultam de diferentes processos como a distribuição da cidade entre centralidades e periferias, relações de classe e raciais. Assim, as relações sendo elas no âmbito da atuação política, profissional ou pessoal estão perpassadas por estes processos e vão substancializá-las.
A partir de 2009, passei a frequentar eventos e outrosespaços voltados para o Hip Hop2, e foi a dificuldade de permear estes espaços que me permitiu perceber a complexidade de contemporizar habitus quando se exprime o pertencimento a grupos historicamente antagonizados. E identifiquei que as letras cantadas nestes espaços compõem um discurso que os sujeitos que estavam ao meu redor fazem presente em suas escolhas de atitudes e posturas cotidianas efoi nessa tentativa de compreensão que derrubei por chão, qualquer definição acadêmica de etnia, classe social, pertenças e antagonismos, ao abrir a percepção para as relações: branca ou preta, periférica ou classe média, playboy ou favela, e levar a sério como estas se constroem.
Para que pudesse compreender as harmonizações e antagonismos no qual me inseri a partir daquele momento e quais os...