Saude e meio ambiente

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SAÚDE E AMBIENTE: AS DOENÇAS EMERGENTES NO BRASIL
MARTA G. PIGNATTI*

INTRODUÇÃO
Este artigo procura resgatar questões relacionadas às formas de abordagem
da dimensão ambiental pela área de Saúde e a dinâmica de algumas doenças chamadas
emergentes como produtos das relações humanas com o ambiente. A questão ambiental
tem adquirido nos últimos anos uma importância maior devido a fatoresglobais, tais
como o efeito estufa, o buraco da camada de ozônio, a poluição atmosférica e a perda
da biodiversidade. No entanto, os problemas ambientais locais, tais como a degradação
da água, do ar e do solo, do ambiente doméstico e de trabalho, têm impactado
significativamente a saúde humana.
A existência de relações entre a saúde das populações humanas e ambiente
já está presente nosprimórdios da civilização humana, através dos escritos hipocráticos.
Ao despontar do século XIX, as cidades cresciam, sobretudo, devido à revolução
industrial. A par disto, as condições de vida se deterioravam. O paradigma científico
predominante era o de que as doenças provinham das emanações resultantes dos
acúmulos de dejetos (miasmas). A teoria miasmática propiciou, no século XIX, a
melhoria doambiente urbano no mundo desenvolvido (ROSEN, 1994). A maioria dos
estudiosos das condições de saúde alinhava-se a esta teoria. Snow, nos seus estudos
sobre o cólera, foi um dos primeiros a defender a possibilidade de existência de agentes
vivos microscópicos na gênese dessa doença (BARRETO, 1990). No final do século
XIX, com a descoberta do micróbio e o conceito de que agentes biológicosespecíficos
eram a causa de determinadas doenças, as explicações relacionadas com o ambiente
sofreram um grande retrocesso. Consolidou-se o conceito de unicausalidade
(BARRETO, 1990; ROSEN, 1994). A emergência da bacteriologia esclareceu o
problema da causação biológica da doença e permitiu que, a partir de fins do século
XIX, os programas de saúde pública pudessem ser efetivados, ignorando arelação

* Professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Recebido em 13/08/2003 e Aceito em 21/11/2003.

Ambiente & Sociedade – Vol. VII nº. 1 jan./jun. 2004

entre doença e condições socioambientais. Esta teoria, como nexo explicativo, tornase insuficiente.
No início século XX, a ecologia firma-se como disciplina científica,
desenvolvendo-se ateoria ecológica das doenças infecciosas, na qual é fundamental
a interação entre o agente e o hospedeiro, ocorrendo em um ambiente de diversas
ordens: física, biológica e social, ou seja, a teoria da multicausalidade (BARRETO,
1990). Em 1935, foram introduzidos os princípios da teoria de sistemas na perspectiva
ecológica, convertendo-a no estudo de dependência e o equilíbrio entre todos oshabitantes de um determinado sistema ecológico. Sob a perspectiva ecológico-funcional,
os seres vivos são classificados de acordo com sua posição nos níveis das cadeias
alimentares. Também a sociedade tem seu lugar reservado no sistema, porque muitos
animais, inclusive o homem, ocupam mais de um lugar na cadeia alimentar (BREILH,
1991).
A teoria da nidalidade de Pavlovsky, em 1939, tem um papelimportante
ao estabelecer a relação do ambiente natural com o aparecimento de doenças nos
homens. O autor coloca que, praticamente, todos os patógenos vistos como novos
existiram previamente na natureza. Os agentes de tais doenças desenvolvem-se em
ambientes naturais definidos (biocenoses), que oferecem as condições necessárias e
suficientes para a sua circulação, momento em que formariam, eminteração com a
biocenose, a patobiocenose. O homem, ao penetrar nesse ambiente, poderia fazer parte
no espiral de circulação do agente, tornando-se seu portador (PAVLOVSKY, 1966).
A incorporação de conceitos da Ecologia em estudos médicos origina,
ainda nas décadas de 60-70, a geografia médica, definida como: "uma disciplina que
estuda a geografia das doenças, isto é, a patologia à luz...
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