Rui chafes - transferencias

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“A consciência da morte, a consciência da ferida mantém-nos em vida (…) acredito que a arte tem de nos ferir, como a morte; tem de ser uma incisão radical. Se a arte não nos desperta, então não
há nenhuma razão para a fazer. E quem a contemplar perderá o seu tempo.”
Rui Chafes - in Rui Chafes Um Sopro, pág. 247

Rui Chafes - Secreta soberania (até que chegue o nosso doce reencontro)

UmSopro, ed. Galeria Graça Brandão (304 pág.; 40 €)
Mais ainda do que acontece com a pintura, não é em livro que se vê uma obra de escultura. A configuração tridimensional, a importância da luz que recorta diferenciadamente as formas, a inserção no espaço arquitectónico em que os objectos se instalam, quando não é em plena natureza que se mostram (ou escondem), a escala, a relação física com oespectador, frontal ou em movimento, não se comunicam pela fotografia, senão de um modo aproximativo. E no entanto, os livros em que Rui Chafes tem vindo a publicar a sua obra de escultor são mais do que um catálogo tradicional. 
Um Sopro, o último volume editado pela Galeria Graça Brandão (304 pág.; 40 €), reúne as obras realizadas de 1998 até 2002 e sucede a três outros saídos desde 95: WürzburgBolton Landing, com peças de 1987 a 94 (sem as instalações em madeira e plástico das três exposições iniciais, de 1986-88) e uma antologia de textos escolhidos pelo artista; Harmonia, esculturas de 1995 a 98; Durante o Fim, a acompanhar a exposição realizada em Sintra, no Parque da Pena e no Museu da Colecção Berardo, em 2000.
Na sua sequência, constituem uma espécie de catálogo «raisonné» da obrade Chafes desde que adoptou o ferro como material de eleição, no sentido habitual de inventário do trabalho dum artista, desvendando a continuidade da produção com as oscilações de pesquisas e resultados, repetições e recuos, sem o recurso confortável à antologia das peças mais conseguidas (distinções neste caso problemáticas face à regularidade exemplar da obra). Não se cumprem, no entanto,outras condições desse tipo de volumes, que em geral os destinam a uma circulação restrita e especializada: a informação sobre os lugares de exposição de cada obra, a lista das reproduções e referências críticas, a exaustiva documentação biográfica e bibliográfica.
Em Um Sopro surgem também, num diálogo que atravessa todo o volume, fotogramas de filmes de Robert Bresson e obras de TilmanRiemenschneider, escultor alemão do gótico tardío (c. 1460-1531) que Chafes aponta como o artista preferido. Ele já surgira no estranho título do primeiro volume através do nome da cidade onde trabalhou e morreu (Würzburg), numa aliança aparentemente insólita com a cidade norte-americana de Bolton Landing onde em 1940 se instalou David Smith, referência maior (depois de Picasso e Julio Gonzalez) da esculturadesenhada em ferro soldado. Em Harmonia, eram imagens de Bergman, Dreyer e Tarkovsky, todas de rostos aproximados, que tinham pontuado a edição estabelecendo outras afinidades formais e simbólicas.

Mais nítida ainda de uma opção que contraria a aridez dum catálogo, a reclamar outra atenção na «leitura» de uma escultura escrita em metal (como referem Jan Hoet/Frank Maes no texto introdutório), éa transferência das legendas para o índice final e o emprego de uma sequenciação numérica que acompanha as imagens sem distinguir as peças individualmente. Os 290 números não correspondem ao total de obras realizadas, mesmo se a produção de Chafes é intensa, mas ao de fotografias, incluindo-se por vezes duas, três ou mesmo cinco imagens da mesma obra, além de vistas gerais ou parciais deexposições. Dificultando a contagem das esculturas, será também a sua desconfiança face à noção de objecto que o escultor põe em prática, conforme afirma num passo, a vários títulos significativo, da «conversa» com Doris von Drathen incluída no volume: «Não acredito no objecto, nem que ele é importante, nem sequer que ele exista, de todo. Para mim o objecto é apenas uma possibilidade. O que procuro no...
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