Ritos de iniciacao

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  • Publicado : 13 de novembro de 2012
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Ritos de Iniciação: um debate necessário

A nossa inclusão na vida social é sempre feita através de rituais que traduzem formas diferenciadas de nos incluirmos, sendo assim um modo de afirmação de pertença a um grupo, a uma sociedade, a uma cultura.

Os ritos variam com os contextos sociais, com as épocas históricas e com as imagens e as práticas que em contínuo reajustamento constroem asnossas identidades, de grupo e individuais. Em muitas regiões do nosso país o enterro do cordão umbilical, a exposição à lua, as bênçãos dos mais velhos são o modo que os vivos e os que já partiram têm de nos acolher e proteger. A bem dizer, a vida é "arranjada", "arrumada" e "acertada" por ritos, os pequenos e os grandes ritos: na entrada para a escola onde novos rituais nos esperam, o primeiroamor, o casamento, o primeiro filho, o sangue fundador que deixa de aparecer e finalmente a morte.

Esses ritos são estruturados por um aparato material e simbólico que lhes fornece a legitimidade, isto é, que os transforma em imperativos identitários. E quando olhamos para as identidades a primeira questão que se nos coloca, remete-nos (e desde o nascimento) para uma condição que tendo comoponto inicial a diferenciação sexual de natureza biológica, nos vai configurando como mulheres e homens. E a utilidade dos ritos é exactamente esta formatação de papéis sociais que oferecem à ordem social do grupo o conforto da sua reprodução.

Entre todos os rituais, os ritos de iniciação são porventura os mais determinantes e sem querer ser positivista, os mais "definitivos". Marcando a passagemda infância para a idade adulta, os ritos de iniciação (rompendo com a neutralidade sexual) informam sobre as expectativas sociais. Estruturados por um grande aparato material e simbólico, eles "dizem" quem nós devemos ser, o que é lícito pensar, falar e experienciar.

No que às mulheres diz respeito os ritos de iniciação enroupados por um conjunto de cerimónias que indo desde as vergastadas às"beberagens", ensinam que ser mulher é ser ausente enquanto sujeito, ser mulher é ser "para o outro", ser mulher é "pacientar" a vida.

Mas os ritos de iniciação, tal como própria cultura, têm, pelo menos no nosso país, sofrido bastantes mudanças. Para já não falar das zonas onde já não se fazem (refiro as grandes cidades, ou parte das grandes cidades) porque outras formas de configuração deidentidades vão sendo encontradas, hoje os ritos pouco têm a ver com os que se faziam à meia dúzia de décadas. As causas são muitas e complexas: vão desde a guerra, à deslocação e desestruturação/reestruturação familiar, até à influência cada vez maior de espaços e valores da modernidade.

Tal como acontece em relação a outros fenómenos, os ritos "modernizaram-se": é comum hoje ver que as antigasmatronas que dirigiam os rituais, são muitas vezes substituídas por mulheres que se arvorando em conhecedoras das cerimónias e dos ensinamentos oferecem os seus serviços a preços que variam com as posses das famílias. Ou seja, os ritos perderam o seu carácter sagrado, secreto e de partilha, para se transformarem num bem de troca, bem este cujo valor depende do mercado da oferta e procura. Os ritossão hoje serviços pagos (e bem pagos), e quanto mais tempo e mais completos forem, mais caros são.

O conteúdo dos ritos também mudou: realizando-se de forma muito mais simples, abandonando cerimónias mais complexas e dolorosas, os conhecimentos sumarizam-se. No entanto algo se mantém: as meninas aprendem que existem para servir: na cozinha, na cama e na machamba.

Porque os ritos influenciamnegativamente no acesso e permanência das raparigas na escola, o Estado tem procurado dar respostas, conciliando, por um lado, o calendário escolar com as cerimónias de iniciação e, por outro lado, retirando dos ritos a aprendizagem sexual, considerada a sua carga mais negativa. Tudo o resto pode manter-se: o ensino da obediência cega aos adultos, o não questionamento das imposições dos mais...
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