Ricardo antunes

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  • Publicado : 29 de outubro de 2011
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Ricardo Antunes
Professor titular e livre-docente no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Especialista e pesquisador na área de Sociologia do Trabalho,
Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo e Mestre em Ciência Política pela Unicamp. Foi visiting research fellow na Universidade de Sussex, Inglaterra.
Publicou vários livros sobre as mudanças nos mundos do trabalho,entre eles: Adeus ao trabalho? (Cortez, 1995), Os sentidos do trabalho – ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho
(Boitempo, 1999), A desertificação neoliberal no Brasil (Collor, FHC e Lula) (Autores Associados) e O caracol e sua concha – ensaios sobre a nova metamorfose do trabalho (Boitempo, 2005).
ES: Professor, comecemos com a grande questão que hoje afeta os mundos do trabalho e ostrabalhadores: a reconfiguração do modo de produção na chamada nova ordem mundial.
Ricardo Antunes: Podemos começar dizendo que, especialmente a partir dos anos 70 para cá, o capitalismo sofreu uma grande reestruturação, de amplitude global, que atingiu sua própria estrutura produtiva, na medida em que o padrão de acumulação taylorista e fordista começou a dar sinais de esgotamento. Trata-se deuma crise estrutural profunda que fez com que, ao longo período de acumulação do pós-guerra, se sucedesse um longo ciclo depressivo. Como exemplo, a ocidentalização dos conceitos do toyotismo – just in time, kanban, círculos de controle de qualidade etc.. Uma característica muito especial desse processo foi a produção mais flexível e mais vinculada ao consumo (em vez de produzir em massa paraconsumo de massa). Os capitalistas iniciaram um processo de reestruturação do capital baseado em alguns elementos: grande incremento tecnológico, com a estruturação de empresas em redes; acentuado enxugamento da força de trabalho, isto é, redução do trabalho vivo, de tal modo que pudesse haver redução de custo, e, paralelamente a essa redução, a expansão da chamada terceirização – núcleo mais restritode trabalhadores estáveis e uma ampla camada de contratados sob o regime da terceirização. As empresas deixam de manter a relação um trabalhador/uma máquina, e criam células produtivas, com cinco ou mais trabalhadores operando simultaneamente até cinco máquinas. Essa reestruturação produtiva caracterizou o chamado período da acumulação flexível, de acumulação capitalista sem a rigidez tayloristae fordista. Um segundo movimento se inicia em 79 e se espalha por toda década de 80 com a vitória de Tatcher na Inglaterra, Reagan nos EUA e Koll na Alemanha, fazendo com que o neoliberalismo, ideologia de uma pragmática muito reacionária, fizesse a apologia do mercado, da desregulamentação, das privatizações, da retração do Estado no que concerne a sua dimensão pública e social, ao lado de suaampliação como instrumento de sustentação das grandes transnacionais. Esse movimento atacou duramente a classe trabalhadora e os sindicatos, vistos como os inimigos principais. Hayeck, um dos formuladores dessa teoria junto com Friedman, dizia que era preciso combater a ‘corporação’ do trabalho. Esse duplo movimento articulado, que é a dupla face de um processo totalizante de reestruturaçãoprodutiva no chão da fábrica e de neoliberalismo no plano ideológico-político, leva a uma terceira característica: o aumento da financeirização, com a hegemonia do capital financeiro e a fusão do capital bancário ao capital industrial, mais os capitais voláteis, aqueles que ficam circulando e saqueando o mundo, digamos. O quarto ponto é evidente: a enorme precarização do trabalho, que agora se tornatambém estrutural, pela qual redução de custo significa basicamente cortar a força de trabalho. Um último movimento desse cenário é que, a partir de 1989, com o fim do projeto político que se desenhou na União Soviética e que, ao longo do período 30-50, ganhou um caráter que não era socialista, mas também não era rigorosamente capitalista, assistiu-se ao desmonte do bloco socialista. Criou-se a idéia...
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