Revolta da vacina

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  • Publicado : 4 de junho de 2012
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Em As Barricadas da Saúde, Leonardo Pereira tenciona interpretar a revolta da vacina a partir das perspectivas dos agentes diretos desse episódio: em sua maioria, trabalhadores de diversas regiões do Rio de Janeiro, mostrando que eles tiveram papel fundamental no processo da revolta. Para tanto, faz uma reflexão sobre a densidade da desigualdade social da região, amparada sob as bases de umarelação senhorial desfeita recentemente, onde a dicotomia e a mistura entre senhores e escravos geravam profundas fissuras sociais, raciais e culturais. Entretanto, as tensões sociais não se baseavam apenas nas questões da antiga sociedade monárquica, mas adquiriam uma gama de novas características, colocando em conflito indivíduos de um mesmo grupo social. A elaboração de novos conhecimentos, como aMedicina, abria espaço para definição de ignorâncias, onde os sujeitos leigos perdiam status. O sentido social dos ‘novos saberes’ era justificar a supremacia de certos grupos em detrimento de outros.
Partindo desses argumentos principais Pereira começa, no primeiro capítulo, Vacina, Varíola e outras formas de cura, a descrever um pouco mais sobre o momento político da Capital Federal. No governode Rodrigues Alves (1902) inicio-se uma série de reformas na capital. O prefeito do Rio, Pereira Passos, começou um processo de reforma urbana, marcada pela abertura de avenidas, expulsando assim muitos trabalhadores instalados em cortiços e casas de cômodos da região central. Outra preocupação urgente do governo era com relação à higiene pública, pois a população vinha definhando com o grandesurto de doenças transmitidas pelas condições sanitárias da cidade. Por ter conseguido a erradicação quase total da peste bubônica em São Paulo, Oswaldo Cruz assume o posto de Secretário-Geral da Saúde, em 1903. A par das teorias recentes na medicina, Cruz recebe aval do governo para controlar a insalubridade da capital, alcançando índices significativos contra a febre amarela e a peste, por meio deatuações enérgicas e violentas. Na campanha contra a febre amarela, compôs grupos, intitulados ‘brigadas mata-mosquitos’, com o poder de invadir e vistoriar residências, fiscalizar e demolir construções. Em Junho de 1904 há surto de outra epidemia. Diferente das outras doenças, essa era de origem viral e mais difícil de ser combatida, sendo a vacinação o único meio eficaz de combatê-la. OswaldoCruz, então, propõe um projeto de obrigatoriedade da vacinação para toda a população, o qual foi muito mal recebido por toda sociedade carioca, pois compreendia no projeto um atentado contra as liberdades individuais, sendo até mesmo vexatório para a população. Pereira relata que o desrespeito aos direitos dos trabalhadores era uma constante, e os protestos contra a vacina sempre estiveramvinculados também à ação policial.
Essa hostilidade à polícia pode ser notada no romance O Cortiço de Aluísio Azevedo no momento em que ele narra um confronto entre os moradores do cortiço e a polícia, mostrando também como era arquitetada uma barricada: “A polícia era o grande terror daquela gente, porque sempre que penetrava em qualquer estalagem havia grande estropício; à capa de evitar e punir o jogoe a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos e quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão de ódio velho. E, enquanto os homens guardavam a entrada do capinzal e sustentavam o portão da frente, as mulheres, em desordem, rolavam as tinas, arrancavam jiraus, arrastavam carroças, restos de colchões e sacos de cal, formando às pressas uma barricada” [i].
A mídiaoposicionista se aproveitou para propagar idéias contrárias à vacinação, tencionando desmoralizar o governo e a própria vacina. “A própria lógica na qual se baseava a eficácia da vacina era, assim, utilizada por seus críticos para atacá-la, disseminando uma desconfiança sobre ela que parecia ir muito além dos círculos letrados restritos, que nesse momento capitaneavam a oposição às medidas de Oswaldo Cruz”...
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